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Como usar uma mochila sem arruinar as costas

Jovem com mochila preta ajustando as alças na rua durante o dia, com bancos e pessoas ao fundo.

O aluno à minha frente no metro está torto, como uma torre inclinada feita de hoodie e ténis. Uma mochila - quase do tamanho de uma mala de cabine - balança solta, presa apenas por uma alça. O outro ombro vai livre, mas levantado, como se estivesse a tentar impedir a queda. Dois lugares ao lado, uma jovem com mochila de portátil: alças no máximo, o tecido bate na zona lombar, e a fita peitoral fica pendurada, inútil, à frente dela, como se fosse um adereço.

É aquele instante que toda a gente conhece: olhamos em redor e percebemos, de repente, quantos corpos estão a fazer força sem que ninguém repare. Nota-se nos ombros arredondados, nas cabeças projectadas para a frente. E quase ninguém se pergunta que papel é que a mochila tem nisto. Talvez seja precisamente por aí que valha a pena começar.

Porque quase toda a gente usa a mochila de forma errada - e nem dá conta

Basta passar uma manhã junto a uma escola ou numa estação para ver um padrão silencioso. Costas arqueadas. Pescoços tensos. Mochilas demasiado baixas, como se estivessem prestes a escorregar pela anca. A maioria ajusta as alças uma vez, no dia em que compra a mochila - e depois nunca mais. O corpo vai-se “arranjando” como pode, até ao dia em que começa a reclamar em surdina. Primeiro é só um repuxar entre as omoplatas; mais tarde, um ardor ao fim do dia; e, a certa altura, uma dor surda que deixa de desaparecer.

Uma fisioterapeuta em Colónia contou-me, uma vez, o caso de um aluno de 14 anos que apareceu com dores nas costas típicas de pessoas de quarenta e tal. O quotidiano explicava tudo: trajecto diário para a escola, saco de desporto na mão, mochila ao ombro - só de um lado - cheia de livros. Sem acidente, sem doença: apenas hábito.

Os estudos indicam que muitas crianças carregam nas costas bem mais de 10% do seu peso corporal - algumas, mais perto de 20%. E os adultos raramente fazem melhor: mochilas de portátil com carregador, garrafa de água, documentos, snacks, por vezes ainda sapatilhas para correr. Quando se pergunta quanto pesa, a resposta costuma ser um encolher de ombros. E são precisamente esses ombros que acabam por pagar.

A lógica por trás disto é simples e implacável. Uma mochila pesada, ou mal regulada, empurra a carga para trás. O corpo reage por reflexo: inclina-se para a frente, a cabeça avança, e os músculos do pescoço e da zona lombar ficam em contracção permanente. Quem usa só uma alça obriga a coluna a uma inclinação lateral, dia após dia.

Os pequenos músculos que deveriam estabilizar começam a falhar por excesso de trabalho. Dá para ignorar durante algumas semanas. Até durante alguns anos. Mas não para sempre. A mochila torna-se um amplificador discreto de qualquer má postura - por vezes tão discreto que só se nota quando já dói a sério.

Como usar uma mochila sem arruinar as costas

A boa notícia é que, em cinco minutos, dá para regular a mochila de forma a deixar de “lutar” contra o corpo e passar a colaborar com ele.

Primeiro: usar sempre as duas alças, sem excepções. Depois, subir a mochila até a base ficar sensivelmente à altura da bacia - e não a meio das nádegas. Apertar as alças até a mochila ficar bem encostada às costas, sem cortar nos ombros. Se existir cinto de anca, vale a pena fechá-lo: tira uma parte grande do peso dos ombros. Se houver fita peitoral, também deve ser usada, para impedir que as alças deslizem para fora.

Por fim, dar alguns passos. Se o peso parecer “colado” à coluna, em vez de puxar para trás, está perto de uma posição saudável.

Os erros mais comuns vêm da comodidade e do automatismo, não de maldade: uma alça “porque fica mais fixe”; alças no máximo “para não apertar”; dez coisas no compartimento principal, todas em baixo “porque assim é mais fácil chegar”. Carregar assim empurra o corpo para um tipo de modo de emergência: ombros levantados, respiração mais curta, pescoço rígido.

Sejamos honestos: ninguém vai ajustar a mochila de novo todos os dias. E não é preciso. Mas regulá-la com atenção uma vez, colocar o peso o mais perto possível das costas, e pôr os objectos mais pesados mais acima em vez de no fundo - muda surpreendentemente muita coisa. E não, puxar pela alça à pressa a caminho do metro não é a mesma coisa.

Uma ortopedista resumiu isto na consulta, de forma muito seca:

“Uma mochila bem ajustada é como um guarda-costas silencioso para a sua coluna. Uma mochila mal ajustada é um pequeno ataque diário - que só se nota quando o estrago já lá está.”

  • Use sempre as duas alças, nunca apenas uma.
  • Altura da mochila: base aproximadamente à altura da bacia, não mais abaixo.
  • Peso: idealmente abaixo de 10% do peso corporal, no máximo cerca de 15%.
  • Objectos pesados perto das costas e mais acima, não no fundo.
  • Use o cinto de anca e a fita peitoral, se existirem - não os deixe a “fazer de decoração”.

O que muda quando levamos as mochilas a sério

Quando se começa a reparar, cada plataforma parece um pequeno estudo sobre posturas modernas. Pessoas de ombros encolhidos, a carregar a vida inteira em tecido e fechos nas costas. Outras, surpreendentemente direitas, com a mochila encostada ao corpo e um andar mais solto.

Entre estas duas imagens, muitas vezes, não estão anos de ginásio: estão dois ajustes nas alças e uma decisão contra a inclinação permanente. O corpo regista cada alívio - tal como regista cada sobrecarga. E, por vezes, o gesto mais honesto para proteger as costas não é comprar uma almofada cara, mas olhar com atenção para esta coisa que atiramos para cima de nós todos os dias.

Quem tem filhos vê isto quase em câmara rápida. Primeiro, os miúdos do 1.º ano, orgulhosos, com mochilas enormes e olhos a brilhar. Depois, adolescentes que passam a usar a mochila só num ombro, porque as duas alças “não têm estilo”. Mais tarde, jovens adultos com mochilas de portátil que parecem escritórios ambulantes.

É fácil despachar o assunto com outro encolher de ombros: “Não há-de ser assim tão mau.” Só que os números de dores nas costas em pessoas jovens têm aumentado ao longo dos anos. As mochilas não são a única causa, mas são um factor diário ao qual tratamos com uma indiferença impressionante.

Talvez esteja aí uma oportunidade discreta: não virar o mundo do avesso, mas apertar a alça mais um furo.

No fundo, trata-se de algo pouco espectacular: como é que queremos que o corpo nos leve pelo dia-a-dia? Com resistência a cada passo, ou com um pouco mais de cooperação?

A questão da mochila parece banal, quase ridícula na sua pequenez. E, no entanto, aparece em todo o lado: no puxão no pescoço depois de um dia longo, no rodar cansado dos ombros na paragem, na consulta médica que “é cedo demais para estas queixas”. Talvez o primeiro passo seja, amanhã de manhã, ficar mais um instante parado, pôr a mochila com intenção e sentir como ela assenta. E depois decidir se a coluna é mesmo o sítio certo para sermos descuidados por hábito.

Ponto-chave Detalhe Benefício para o leitor
Altura da mochila Base à altura da bacia, bem encostada às costas Alivia os ombros e ajuda a evitar a postura em hiperlordose
Distribuição do peso Objectos pesados colocados em cima e junto às costas Reduz o puxão para trás e as tensões crónicas no pescoço
Uso das alças As duas alças, mais cinto de anca e fita peitoral (se existirem) Distribui a carga pelo tronco em vez de a concentrar apenas nos ombros

FAQ:

  • Pergunta 1 Qual é o peso máximo recomendado para a minha mochila? Como regra geral, cerca de 10% do peso corporal; por períodos curtos, até 15%. Se a mochila já parece pesada, para o dia-a-dia provavelmente é demais.
  • Pergunta 2 Uma mochila é mesmo melhor do que uma mala a tiracolo? Na maioria dos casos, sim, porque distribui o peso de forma simétrica pelos dois ombros e - com cinto de anca - pela bacia, em vez de sobrecarregar um lado.
  • Pergunta 3 Como sei que a mochila está mal ajustada? Repuxar no pescoço, marcas de pressão nos ombros, sensação de estar a ser puxado para trás ou vontade de inclinar o tronco para a frente são sinais claros.
  • Pergunta 4 Mochilas com fita peitoral e cinto de anca são só para caminhadas? Não. Também ajudam no dia-a-dia, sobretudo com portáteis mais pesados ou em percursos mais longos, e aliviam bastante a parte superior das costas.
  • Pergunta 5 Faz diferença que mochila compro? Sim. Alças almofadadas e bem reguláveis, costas firmes e compartimentos pensados para distribuir o peso tornam mais fácil transportar de forma amiga das costas.

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