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Mega-aeroporto de Bishoftu na Etiópia: projecto de 12,7 mil milhões de dólares com Zaha Hadid Architects

Interior moderno de aeroporto com passageiros a caminhar e aviões visíveis através da janela panorâmica.

Um país africano prepara um aeroporto fora de escala - com uma factura de 12,7 mil milhões de dólares e efeitos a nível global.

Enquanto na Europa se multiplicam as discussões sobre proibições de voos nocturnos e metas climáticas, a Etiópia segue uma rota muito diferente: quer afirmar-se como um grande hub internacional através da construção de um novo mega-aeroporto perto da capital, Addis Abeba - uma aposta capaz de alterar equilíbrios na aviação.

Um projecto aeroportuário com dimensão histórica

A 10 de janeiro, em Bishoftu, a cerca de 40 quilómetros a sudeste de Addis Abeba, foi colocada simbolicamente a primeira pedra do empreendimento. As autoridades apresentam-no como o maior projecto de infra-estrutura aeroportuária alguma vez realizado em África. O montante previsto de investimento é de aproximadamente 12,7 mil milhões de dólares.

A lógica por detrás é explícita. Com vários hubs consolidados - como Frankfurt, Dubai ou Istambul - a aproximarem-se dos seus limites de capacidade, a Etiópia pretende antecipar o crescimento esperado do tráfego aéreo, sobretudo nos fluxos entre África, Europa, Médio Oriente e Ásia.

"O novo aeroporto em Bishoftu não deverá apenas melhorar a ligação de África, como também reorganizar rotas internacionais."

O plano passa por um local totalmente novo que, a prazo, deverá aliviar e em parte substituir o actual aeroporto da capital, Addis Abeba Bole. Bole já funciona como um hub em forte expansão, mas o espaço disponível é limitado e a capacidade deverá, previsivelmente, esgotar-se.

A assinatura da Zaha Hadid Architects

Para o desenho do projecto, a Etiópia recorre a um dos ateliers de arquitectura mais reconhecidos do mundo: a Zaha Hadid Architects. O estúdio londrino é conhecido, entre outros, pelo Aeroporto Daxing de Pequim, bem como por museus de estética futurista e grandes arenas desportivas.

Em Bishoftu, a intenção é que o aeroporto seja mais do que um equipamento funcional - pretende-se também um gesto arquitectónico marcante. As primeiras imagens divulgadas apontam para formas orgânicas e curvas, amplas superfícies envidraçadas e grandes átrios, alinhados com a linguagem visual de outros trabalhos do atelier.

  • Terminais amplos, com abundante luz natural
  • Percursos de ligação curtos para passageiros em trânsito internacional
  • Crescimento futuro assegurado por expansão modular
  • Integração de hotéis, centros de conferências e logística

Com isto, o aeroporto é pensado mais como um complexo multifuncional do tipo “Aviation City” do que como um simples local de descolagens e aterragens.

Assim deverá ser o mega-aeroporto

Os dados oficiais sobre a capacidade final ainda estão a ser afinados, mas tanto representantes do Governo como a Ethiopian Airlines falam de um hub de primeira linha. No sector, surgem comparações com Istambul ou Dubai.

Aspecto Mega-aeroporto planeado em Bishoftu
Montante de investimento ca. 12,7 mil milhões de dólares
Localização Bishoftu, perto de Addis Abeba
Papel Hub internacional para tráfego de/para África
Utilização Passageiros, carga, actividade comercial e serviços

O objectivo é processar, no futuro, muito mais movimentos de aeronaves e passageiros do que o actual aeroporto da capital consegue suportar. A Ethiopian Airlines - já hoje uma das maiores e mais rentáveis companhias aéreas africanas - deverá, com esta infra-estrutura, reforçar de forma significativa o seu papel de transportadora de rede.

Porque a Etiópia quer tornar-se um nó global

A geografia joga a favor do país: a partir de Addis Abeba, muitas grandes cidades da Europa, do Médio Oriente e de partes da Ásia ficam acessíveis dentro de um segmento de voo intermédio. Para ligações entre África e Europa ou Ásia, Bishoftu pode tornar-se uma escala lógica.

Com um hub robusto, é possível consolidar procura em rotas que, ponto a ponto, não seriam financeiramente viáveis. Passageiros oriundos de cidades africanas mais pequenas voam para Bishoftu, fazem ligação e seguem para metrópoles mundiais. É um modelo de negócio que já sustentou o crescimento de companhias em Dubai, Doha ou Istambul.

"Quem controla o hub controla, até certo ponto, também os fluxos de tráfego - e, com isso, dinheiro, empregos e influência."

Para a Etiópia, isto pode traduzir-se em várias oportunidades:

  • empregos directos no aeroporto, em áreas como técnica, serviço, segurança e administração
  • empregos indirectos em hotelaria, logística, restauração e construção
  • aumento de receitas via taxas, impostos e prestação de serviços
  • impulso forte ao turismo e às viagens de negócios

Riscos, críticas e questões em aberto

Um investimento desta dimensão também implica riscos. A necessidade de garantir, no longo prazo, a sustentabilidade do financiamento de 12,7 mil milhões de dólares é central. Conforme o modelo escolhido, a dívida pode tornar-se um peso para as contas públicas e, por extensão, para os contribuintes.

Acresce a incerteza sobre se as previsões de crescimento da aviação se concretizam com a força esperada. O sector está em recuperação, mas enfrenta pressão devido ao debate climático, à tarifação de CO₂ e a mudanças tecnológicas. Se a expansão ficar bastante aquém, partes do aeroporto podem acabar subaproveitadas.

Há ainda impactos locais a considerar: ruído, consumo de solo e interferências em ecossistemas. Um mega-aeroporto de raiz ocupa muito território, altera padrões de mobilidade e mexe em estruturas existentes. Disputas relacionadas com realojamentos ou com a conversão de terrenos agrícolas também são frequentes em empreendimentos deste tipo.

O que um novo hub significa para os viajantes

Para passageiros na Europa, Bishoftu poderá, a médio prazo, abrir novas opções de ligação. Quem, por exemplo, viajar de Munique para uma metrópole da África Oriental pode vir a fazer escala na Etiópia em vez de em Istambul ou Doha. A concorrência pelos passageiros em trânsito tende, assim, a intensificar-se.

No segmento de carga, um novo hub também ganha relevância. Exportações africanas - como flores, fruta, legumes ou têxteis - chegam mais depressa aos mercados de destino quando existem boas ligações. Uma área de carga moderna, com cadeias de frio e tempos curtos de assistência em terra, pode tornar-se uma vantagem competitiva real.

Tecnologia, sustentabilidade e novos tipos de aviões

Por ser um aeroporto totalmente novo, há margem para integrar desde o início processos e tecnologia actuais. Fala-se em gestão digital dos fluxos de passageiros, sistemas automatizados de bagagem, preparação para combustíveis alternativos como o Sustainable Aviation Fuel e edifícios energeticamente eficientes.

A nova geração de aviões de longo curso também entra na equação. Modelos como o Boeing 787 ou o Airbus A350 são mais eficientes e mais silenciosos, mantendo alcances semelhantes aos dos seus antecessores. Isso ajuda a explicar porque os hubs continuam a ser relevantes apesar dos ganhos de eficiência: permitem viabilizar muitas rotas com procura “fina” que, de outra forma, não existiriam.

Porque este aeroporto vai além da Etiópia

O mega-aeroporto em Bishoftu é mais do que um projecto nacional de prestígio. Representa a ambição de vários países africanos em deixarem de ser apenas espectadores quando se fala de infra-estrutura global. Controlar grandes nós de transporte em território próprio reforça a posição em cadeias de abastecimento, em negociações políticas e junto de investidores.

Para a aviação, o novo aeroporto pode tornar-se mais uma peça num mapa de hubs que, gradualmente, se afasta de centros exclusivamente europeus e norte-americanos. Se Bishoftu acabará, de facto, por se transformar num novo foco do tráfego aéreo mundial dependerá de múltiplos factores - da estabilidade política à qualidade da gestão. Ainda assim, só o facto de a Etiópia avançar com uma aposta de 12,7 mil milhões de dólares evidencia o grau de seriedade com que encara esta visão de futuro.


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