Nos Alpes, o inverno deixou de ser uma certeza.
A neve natural torna-se cada vez mais rara, os custos disparam e o modelo clássico do turismo de esqui começa a ser posto em causa.
À medida que o planeta aquece, as estâncias recorrem, com frequência crescente, à neve produzida por canhões para conseguirem manter as pistas abertas. Esta opção envolve investimentos de muitos milhões de euros, em grande parte suportados por fundos públicos. No entanto, estudos recentes sugerem que esse esforço poderá não estar a gerar o retorno económico esperado - voltando a colocar no centro do debate o futuro do turismo de inverno.
A neve de canhão torna-se peça central no negócio do esqui
Durante muitos anos, as estâncias funcionavam quase apenas com a neve que caía naturalmente. Esse quadro alterou-se: a variabilidade de neve de um inverno para o outro tornou-se mais marcada e as épocas consideradas “sem neve” deixaram de ser casos raros.
Com o avanço das alterações climáticas, diminuem os invernos com bons volumes de neve e multiplicam-se os de fraca acumulação. As estâncias abaixo dos 2.000 metros já sentem este impacto com especial intensidade. Num cenário de aquecimento até +4 °C, estimativas europeias indicam que 98% das estâncias do continente estarão expostas a um risco elevado de défice de neve natural.
Perante isto, a produção de neve - frequentemente designada na Europa por “neve de cultura” - deixou de ser um mero complemento e passou a ser o núcleo da estratégia de adaptação. Na prática, os canhões trabalham durante semanas seguidas para assegurar uma base mínima de neve nas pistas principais e no percurso de regresso à estância.
"A neve artificial deixou de ser seguro extra para virar o pilar do modelo econômico de grande parte das estações de esqui."
Em França, a percentagem de pistas com equipamento de produção de neve aumentou de cerca de 14% em 2004 para 39% em 2018. Este salto reflecte uma mudança de abordagem: perante a incerteza climática, a resposta mais comum foi apostar fortemente em tecnologia para tentar manter o status quo.
Investimentos elevados, retorno económico incerto
A questão central hoje já não é só técnica; é também financeira: faz sentido continuar a canalizar dinheiro para canhões de neve como principal via de adaptação? Um estudo recente avaliou o desempenho financeiro de 56 empresas operadoras de teleféricos e infra-estruturas de esqui nos Alpes franceses, entre as épocas de 2004/05 e 2018/19.
Os investigadores relacionaram o investimento em sistemas de produção de neve com dois indicadores fundamentais:
- volume de negócios (CA);
- EBE (excedente bruto de exploração), equivalente a um resultado operacional bruto, usado para aferir a rentabilidade da actividade principal.
Para separar o impacto específico da neve artificial, o trabalho recorreu a métodos econométricos e controlou variáveis como a altitude da estância, a dimensão do domínio esquiável e a proximidade de grandes centros urbanos. O objectivo foi ir além de uma simples correlação e aproximar-se de relações de causa e efeito.
O resultado contraria a ideia de que a neve de canhão garante, por si só, a sobrevivência do negócio:
"Os investimentos realizados em neve artificial no período analisado não geraram efeitos significativos sobre o faturamento nem sobre a rentabilidade operacional das estações."
Essa falta de efeito tornou-se ainda mais evidente precisamente nas épocas mais difíceis - os 20% de invernos com menor nível de neve natural. Ou seja: quando a neve de canhão, em teoria, deveria “salvar” a temporada, não surgiu qualquer sinal estatístico de melhoria relevante nos resultados financeiros.
O factor que pesa a sério: altitude
Se os canhões não apresentaram impacto mensurável nos resultados, outro elemento destacou-se como determinante: a altitude das estâncias. Nos invernos com maior escassez de neve, os domínios situados mais alto exibiram uma vantagem clara em relação aos de cotas mais baixas.
Em altitudes superiores, as temperaturas mantêm-se abaixo de zero durante mais tempo, o que permite:
- maior acumulação de neve natural;
- degelo mais lento ao longo da época;
- produção de neve artificial com melhor eficiência energética, quando utilizada.
Esta vantagem natural compensou parte do risco climático - ao contrário de grandes pacotes de investimento em neve de cultura em zonas mais baixas, que não se converteram em aumentos proporcionais de receitas ou de margens.
Estes resultados estão alinhados com investigação anterior. No Canadá, estudos dos anos 2000 já apontavam para um limiar de saturação: a partir de determinado nível de investimento, o custo adicional da neve artificial ultrapassa os benefícios económicos. Trabalhos em França, Suíça e Espanha, publicados entre 2008 e 2020, mostram uma tendência semelhante: o retorno existe até certo ponto, mas vai diminuindo e, em muitos casos mais recentes, já nem sequer é detectável.
Porque é que a conta da neve artificial começa a deixar de fechar?
Há várias razões para esta quebra de rentabilidade. Em termos simples, os custos sobem mais depressa do que as receitas associadas. Entre as principais rubricas de despesa contam-se:
- electricidade para alimentar bombas e compressores;
- captação, transporte e armazenamento de água;
- manutenção da rede de canhões, tubagens e reservatórios;
- mão de obra especializada para operar o sistema;
- amortização de equipamento caro, com vida útil limitada.
Com o aquecimento do clima, a “janela de frio” adequada à produção de neve encurta. Para produzirem a mesma quantidade, as estâncias têm de concentrar a produção em períodos mais curtos e, muitas vezes, com temperaturas no limite - o que aumenta o consumo de energia e tende a piorar a qualidade da neve gerada.
| Factor | Efeito na neve de canhão |
|---|---|
| Temperaturas médias mais altas | Menos horas disponíveis para produção eficiente |
| Menos neve natural | Necessidade de cobrir áreas maiores com neve artificial |
| Custo de energia | Aumenta o gasto por metro cúbico de neve produzida |
| Pressão ambiental | Limites para uso de água e expansão de reservatórios |
Do lado das receitas, o número de esquiadores não aumenta ao mesmo ritmo. Algumas famílias evitam épocas incertas; outras mudam para actividades alternativas de inverno ou para destinos mais altos. Ao mesmo tempo, a concorrência entre estâncias intensifica-se, pressionando preços através de promoções e pacotes mais baratos.
"Quando o custo de manter a ilusão de inverno supera a capacidade de gerar receita, a estratégia deixa de ser um seguro e vira um peso."
O que isto implica para políticas públicas e para o futuro das estâncias
Como uma parte significativa do investimento em neve artificial é financiada com recursos públicos - via subsídios, crédito bonificado ou infra-estruturas partilhadas - a discussão ganha inevitavelmente uma dimensão política. Já não se trata apenas de saber se compensa para a empresa que opera os teleféricos, mas também de perceber se faz sentido a colectividade sustentar esta aposta a longo prazo.
Em muitas zonas alpinas, a economia local depende fortemente do esqui: hotéis, restauração, comércio e emprego sazonal gravitam em torno das pistas. Esse peso social tende a justificar, pelo menos em teoria, o apoio a projectos de modernização das estâncias. Ainda assim, as novas evidências económicas indicam que canalizar recursos quase só para mais canhões de neve pode estar a perpetuar o problema, em vez de o enfrentar.
Caminhos alternativos de adaptação
Perante este cenário, ganha força a discussão sobre estratégias que complementem ou substituam a neve artificial. Entre as linhas de acção já testadas em destinos de montanha, destacam-se:
- diversificação para actividades de inverno que não dependem de neve garantida, como percursos pedestres, spas, gastronomia e eventos culturais;
- reforço do turismo de verão (ciclismo, trekking, desportos de aventura);
- redireccionamento do investimento para eficiência energética e transportes colectivos de acesso;
- planeamento urbano que reduza a dependência exclusiva do esqui na economia local.
Estas medidas não substituem de imediato as receitas das pistas, mas podem diminuir a vulnerabilidade das comunidades alpinas a invernos cada vez mais imprevisíveis.
Alguns conceitos que importa perceber melhor
Dois termos técnicos surgem frequentemente nestas discussões e costumam levantar dúvidas:
- EBE (excedente bruto de exploração): mede o resultado operacional bruto de uma empresa antes de depreciações, juros e impostos. Funciona como um indicador da capacidade da actividade principal gerar caixa.
- Neve de cultura: neve produzida artificialmente, sem aditivos químicos, a partir de água e ar comprimido. O processo exige temperaturas suficientemente baixas para que as gotículas pulverizadas congelem durante a queda.
Outro ponto menos debatido é o risco cumulativo. Uma época fraca pode ser absorvida, mas uma sucessão de invernos maus, combinada com endividamento elevado para financiar novos sistemas de neve artificial, pode agravar a pressão sobre a saúde financeira das operadoras e dos municípios envolvidos.
As simulações de grupos de investigação europeus costumam trabalhar com cenários graduais de aquecimento. Em cenários intermédios, algumas estâncias de altitude média ainda conseguem manter parte da operação com apoio da neve artificial. Em cenários mais extremos, apenas áreas muito elevadas preservam condições regulares de esqui, enquanto as restantes encaram escolhas difíceis: reduzir a dimensão do domínio, transformar o modelo de negócio ou aceitar um declínio lento.
Para viajantes portugueses que sonham em esquiar, este debate tem consequências práticas. Destinos de maior altitude tendem a oferecer épocas mais estáveis nas próximas décadas, mas também podem privilegiar preços mais altos e exigir reservas antecipadas. Já as regiões de menor altitude poderão apostar em pacotes mais amplos, com menos garantia de neve, mas com actividades variadas para quem procura natureza, descanso e gastronomia.
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