A máxima “No pain, no gain” continua a ecoar na cabeça de muita gente. Quem abranda ao correr, faz uma pausa a andar ou não termina completamente exausto depressa se sente um falhado. Médicos do desporto e treinadores de corrida estão a alertar: esta forma de pensar não só está errada, como pode prejudicar seriamente a saúde, a motivação e a evolução do treino a longo prazo.
De onde nasce a ideia errada de que a dor é obrigatória
Durante os anos 80 e 90, o culturismo, os vídeos de aeróbica e o desporto de alto rendimento dominaram o espaço mediático. O “atleta ideal” era apresentado como alguém que treinava muito para lá do limiar de dor. Se uma pessoa não suava, não arfava e não acabava arrasada, era facilmente rotulada de “mole”.
Esta narrativa saiu dos ginásios e entrou no dia a dia. A mensagem tornou-se simples e perigosa: só quem sofre é que melhora. As pausas passaram a parecer suspeitas e um ritmo lento foi visto como tempo desperdiçado. Sem se aperceberem, muitos transferiram esta lógica para os treinos de corrida - apesar de não serem atletas profissionais nem competidores.
“O mito da dor necessária transforma um desporto saudável num teste permanente - e tira a muitos o prazer de correr.”
O resultado é previsível: até quem está a começar do zero acredita que tem de correr de seguida, “ver vermelho” e aguentar a dor na zona lateral do abdómen. Quando não consegue, começa a duvidar de si - e, muitas vezes, desiste por completo.
Quando a pressão adoece: as consequências perigosas de “No pain, no gain”
Psicólogos do desporto e ortopedistas identificam, repetidamente, padrões semelhantes em corredores amadores que se orientam por estes ideais:
- Frustração, por sentirem que o seu ritmo não encaixa nas supostas “normas”
- Vergonha, quando fazem pausas a andar ou interrompem o treino
- Sobrecargas como síndrome da canelite, problemas no joelho, irritações do tendão de Aquiles
- Paragens prolongadas devido a lesões - muitas vezes o primeiro passo para abandonar a actividade física
Estão especialmente expostas as pessoas que regressam após uma longa pausa, por exemplo depois de uma gravidez, de uma lesão ou de anos de muito stress no trabalho. Em vez de recomeçarem devagar, comparam-se com tempos antigos ou com amigos que já correm há mais tempo. Essa comparação cria uma pressão desnecessária.
Treinadores relatam que este grupo diz frequentemente: “Eu simplesmente não nasci para correr.” Na maioria das vezes, o que querem dizer é: “Já não aguento esta pressão que eu próprio criei.” Em muitos casos, o problema não está no corpo - está numa filosofia de treino errada.
Marcha e corrida em alternância: porque a combinação é tão eficaz
Uma das respostas mais eficazes a esta pressão chama-se método marcha-corrida - no jargão técnico, muitas vezes designado por “Run-Walk”. O princípio é directo: segmentos curtos de corrida são alternados, de forma intencional, com fases de caminhada rápida.
Exemplo típico para iniciantes:
- 1 minuto de corrida leve
- 2 minutos de caminhada em passo vivo
- repetir o bloco 10-15 vezes
Estudos e experiência no terreno apontam várias vantagens desta estratégia:
- Menos lesões: articulações, tendões e músculos recebem alívio regular.
- Quase sem “picos de pulsação”: nas fases a andar, o sistema cardiovascular acalma e o treino mantém-se controlável.
- Mais capacidade de manter o plano: quem não “rebenta” por completo treina com mais regularidade e ao longo do tempo.
- Resultados mais rápidos: aumenta-se o tempo total em movimento sem colocar o corpo em sobrecarga.
“Na perspectiva de muitos especialistas, cada minuto em movimento conta - quer seja a correr, quer seja a andar.”
Um ponto interessante: em avaliações, grupos que usaram o método marcha-corrida não tiveram resultados piores do que grupos que correram sempre sem parar. Em alguns casos, até cumpriram o programa com mais consistência, porque as queixas de sobrecarga foram menos frequentes.
Psicologia do ritmo: andar é estratégia, não é derrota
O maior “botão” está, muitas vezes, na cabeça. Se as pausas a andar são interpretadas como “falhanço”, cada segundo de abrandamento torna-se mais um motivo de pressão. Se forem entendidas como uma ferramenta, a pessoa mantém o controlo.
Alguns padrões de pensamento comuns que valem a pena trocar:
| Mentalidade antiga | Nova abordagem |
|---|---|
| “Se eu ando, não sou um verdadeiro corredor.” | “Uso a caminhada para me manter activo por mais tempo e sem dor.” |
| “As pausas são só para os fracos.” | “As pausas são recuperação planeada e fazem parte do meu plano.” |
| “Tenho de ser mais rápido do que os outros.” | “Quero sentir-me melhor do que antes - não melhor do que os outros.” |
Psicólogos do desporto sublinham: quando a fasquia interna baixa para um nível realista e os objectivos são ajustados, a motivação aumenta muito. O marcha-corrida oferece pequenas vitórias frequentes. O treino deixa de ser “estragado” só porque houve momentos a caminhar.
Motivação em vez de sofrimento: como voltar a gostar de correr
Muitas pessoas que começam com marcha-corrida descrevem, ao fim de poucas semanas, efeitos surpreendentes:
- Ficam com vontade de sair para correr, em vez de inventarem desculpas.
- Sentem a corrida mais como forma de aliviar o stress do que como mais uma obrigação.
- Passam a dar mais atenção às sensações do corpo, em vez de perseguirem automaticamente um ritmo imposto.
Quando se coloca a cronómetro e as comparações em segundo plano, reaparecem detalhes simples: o ar fresco, o som da própria respiração, a luz ao fim da tarde, a sensação de a cabeça ficar mais tranquila ao fim de dez minutos. É isto que mantém as pessoas no desporto durante anos - não uma nova melhor marca.
“Correr pode ser exigente, mas não tem de doer. O decisivo é sentir-se melhor depois do que antes.”
Um início prático para iniciantes e para quem regressa
Um arranque suave para uma vida de corrida mais saudável pode ser, por exemplo, assim:
- Semana 1–2: 30 minutos em movimento, alternando 1 minuto a trotar de forma leve e 2–3 minutos a caminhar em passo vivo.
- Semana 3–4: aumentar ligeiramente a parte de corrida, por exemplo 2 minutos a correr e 2 minutos a andar.
- A partir da semana 5: ajustar conforme a sensação: por vezes 3 minutos a correr e 1 minuto a andar, aumentando a duração total gradualmente até 40 minutos.
O essencial não é seguir um plano ao milímetro, mas respeitar o princípio: é o corpo que manda no ritmo, não um plano rígido encontrado na internet.
Como o ambiente e os media alimentam o mito - e como proteger-se
Para além de slogans antigos, as redes sociais contribuem muito para a pressão do sofrimento. Nos feeds aparecem sobretudo recordes pessoais, fotografias de medalhas e imagens orgulhosas de “finishers”. Quem esteve “apenas” 30 minutos em movimento com pausas a andar raramente publica isso.
Assim, cria-se uma imagem distorcida: a corrida parece um palco de heróis, e não uma actividade de lazer perfeitamente normal. Por isso, torna-se ainda mais importante definir medidas próprias de forma consciente:
- configurar as aplicações para valorizarem tempo em movimento em vez de “ritmo”
- seguir pessoas que falam com honestidade sobre pausas e recuos
- procurar grupos de corrida que assumam claramente que iniciantes e ritmos mais tranquilos são bem-vindos
Treinadores, médicos e clubes também têm responsabilidade. Quando se celebra apenas o desempenho e quase não se fala de recomeços cuidadosos, o problema agrava-se. Por isso, especialistas recomendam que, em aulas e consultas, se discuta abertamente o método marcha-corrida e alternativas semelhantes.
O que significam, na prática, alguns termos comuns da corrida
Muitos termos do treino soam mais duros do que realmente são. Alguns exemplos:
- Corrida de regeneração: corrida extremamente lenta, em que o ritmo pode parecer quase uma caminhada rápida.
- Resistência aeróbia de base: capacidade de se manter activo durante mais tempo a uma intensidade moderada - aqui, caminhar conta muito.
- Gestão da carga: combinação intencional de esforço e alívio, e não “força máxima” permanente.
Quando estes conceitos são bem interpretados, percebe-se rapidamente que a maioria dos planos para atletas profissionais inclui muitas sessões fáceis e fases de regeneração. Lutar continuamente é a excepção, mesmo ao mais alto nível - não a regra.
Outras actividades que fazem bem ao corpo
Quem sente que apenas correr é demasiado repetitivo pode integrar outras formas de movimento:
- Nordic Walking para resistência com menor impacto
- Ciclismo para aliviar os joelhos e variar estímulos
- Treino de estabilidade e força para músculos e tendões
- Alongamentos suaves para melhorar a percepção corporal
Muitas pessoas encontram o seu equilíbrio ideal com uma a duas sessões leves de marcha-corrida por semana e uma actividade complementar. Esse conjunto reduz o risco de lesão e reforça a sensação de estar a fazer algo positivo pelo corpo, em vez de o “combater”.
Ao deixar para trás a crença “só quem sofre é que melhora”, abre-se espaço para um estilo de corrida diferente: menos heróico, mais realista, mais saudável - e, muitas vezes, mais eficaz. Afinal, quem consegue manter a consistência evolui naturalmente, sem uma guerra constante com o próprio corpo.
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