A monitorização do sono é muitas vezes apresentada como uma forma prática de melhorar a qualidade do descanso nocturno. Um novo estudo na Noruega sugere, no entanto, que para quem já sofre de perturbações do sono a análise constante pode desencadear uma espiral perigosa de ruminação, vigilância e noites ainda piores.
Quando olhar para os dados do sono dá nervos
Em poucos anos, as apps de sono e os wearables passaram de curiosidade de nicho a produto de grande consumo. Smartwatches, pulseiras de actividade e até anéis registam hoje, noite após noite, quanto tempo dormimos, quão “profundo” foi o sono, quantas vezes nos mexemos - e convertem tudo numa “pontuação de sono” diária.
Foi precisamente neste ponto que se focou a investigação da Universidade de Bergen. A equipa quis perceber se este tipo de feedback é realmente útil ou se, para alguns utilizadores, pode acabar por ser prejudicial.
Para isso, foram inquiridas mais de 1.000 pessoas na Noruega, com uma idade média a rondar os 50 anos. Os participantes indicaram se usam monitorização do sono, como avaliam o seu descanso e que efeitos positivos ou negativos sentem.
"O estudo mostra: quem já luta com perturbações do sono reage de forma muito mais sensível e, muitas vezes, com maior sofrimento aos dados constantes da sua app de sono."
Utilizadores mais jovens são quem mais ganha - e quem mais sofre
Um detalhe relevante foi o papel da idade. Os adultos mais jovens, entre os 18 e os 35 anos, e também o grupo dos 36 aos 50, foram os que mais relataram benefícios. Referiram que as apps os ajudam a estar mais atentos à necessidade de dormir o suficiente e que ajustaram hábitos - por exemplo, deitando-se com mais regularidade.
Ao mesmo tempo, foram exactamente estas faixas etárias que descreveram níveis mais altos de stress e preocupação por causa dos resultados. Ver todas as manhãs uma pontuação de sono apenas “mediana” pode levar rapidamente à dúvida: “Porque é que estou a dormir tão mal? O que é que se passa comigo?”
- Mais consciência: os utilizadores passam a prestar mais atenção à duração do sono e aos horários.
- Mais motivação: muitos tentam melhorar valores considerados fracos.
- Mais pressão: aumenta o receio de dormir “pouco” ou “mal”.
- Mais ruminação: pensar constantemente no sono contribui, por sua vez, para se manter acordado.
O controlo digital pode agravar a insónia
Os efeitos foram particularmente marcados em pessoas com insónia, isto é, dificuldades persistentes em adormecer e/ou manter o sono. Estas pessoas tendem, por si só, a fixar-se no tema: reparam em cada período acordado, em cada noite agitada, em cada hora que o relógio marca.
É este padrão que os dispositivos de monitorização podem intensificar. Quando alguém já dorme mal, as estatísticas diárias deixam de ser sentidas como informação neutra e passam a funcionar como confirmação constante: “Estás a ver? Dormes mesmo mal.”
"Para quem tem insónia, olhar para a app de manhã pode transformar-se numa autocrítica - e assim tornar a noite seguinte mais pesada ainda antes de começar."
De acordo com o estudo, neste grupo o feedback das apps foi, com muito mais frequência, um gatilho de stress e preocupação. Muitos participantes referiram:
- inquietação ao pensar na noite seguinte,
- verificação repetida e compulsiva dos valores,
- ruminação mais intensa na cama,
- sensação de “falhanço” quando a pontuação de sono era baixa.
O que as apps de sono medem, do ponto de vista técnico
A maioria dos dispositivos de monitorização do sono usa sensores integrados no wearable. O mais comum é que smartwatches e pulseiras estimem o sono combinando vários sinais:
| Parâmetro | O que significa |
|---|---|
| Duração do sono | Quantas horas o utilizador provavelmente dormiu |
| Latência do sono | Tempo entre se deitar e o suposto adormecer |
| Eficiência do sono | Percentagem do tempo na cama em que se está efectivamente a dormir |
| Movimento | Períodos de agitação e momentos de despertar inferidos a partir dos movimentos |
Para a investigação, este tipo de dados pode ser interessante. No dia a dia, porém, a fiabilidade é limitada. Muitas apps falham ao distinguir entre sono leve e períodos acordados - sobretudo quando a pessoa está quieta na cama, mas acordada a pensar e a preocupar-se.
Quando a app vale mais do que a percepção do próprio corpo
Um dos problemas centrais é que muita gente passa a confiar mais no dispositivo do que no que sente. Um cenário típico: a pessoa acorda a sentir-se razoavelmente bem, mas vê uma pontuação de sono baixa e, de repente, fica convencida de que dormiu pessimamente.
Os psicólogos chamam a isto “ortossónia”: a fixação em valores perfeitos de sono. A tentativa contínua de chegar a números ideais cria pressão - e essa pressão pode desencadear perturbações do sono ou torná-las mais intensas.
"O sono não é um projecto para optimizar como um plano de treino. Quanto mais se tenta controlá-lo, maior é a probabilidade de ele escapar."
Quando a monitorização do sono pode fazer sentido
Apesar dos riscos, os investigadores não defendem que se demonizem as ferramentas digitais. Muitos utilizadores relatam benefícios reais quando encaram os dados como uma orientação aproximada - e não como um veredicto diário.
Há situações em que a utilização pode ser útil, por exemplo:
- obter uma primeira noção se se dorme regularmente menos do que o necessário,
- ganhar motivação para se deitar mais cedo,
- identificar padrões, como consumo de ecrãs muito tarde,
- acompanhar mudanças de estilo de vida, como reduzir o álcool à noite.
Quem mantém a calma e usa os números sobretudo como incentivo para hábitos saudáveis pode beneficiar. O ponto decisivo é a atitude: a app dá pistas, não faz diagnósticos.
Sinais de alerta: quando é melhor pôr a app de lado
O conselho dos investigadores noruegueses é claro: no momento em que a app começa a ser, por si só, uma fonte de stress, vale a pena recuar. Alguns sinais concretos incluem:
- Acorda a sentir-se bem, mas fica em baixo depois de olhar para a app.
- Passa o dia a pensar nos valores do sono.
- Fica com medo de uma “má” noite porque no dia seguinte a app vai voltar a avaliar.
- Experimenta truques cada vez mais extremos apenas para subir a pontuação.
Nestes casos, pode ajudar tirar o relógio durante a noite, desactivar notificações ou consultar as análises com menos frequência. Se os problemas de sono forem importantes, não é aconselhável depender apenas da tecnologia: é preferível procurar orientação médica ou psicoterapêutica.
Perturbações do sono: mais do que apenas “dormir pouco”
Muita gente subestima a complexidade da insónia. Não se resume ao número de horas passadas na cama. Pensamentos, expectativas e padrões de comportamento têm um peso determinante.
Entre os sinais típicos de insónia estão, por exemplo:
- ruminação constante ao tentar adormecer,
- medo da noite seguinte,
- verificar repetidamente as horas,
- cansaço e dificuldades de concentração durante o dia.
São precisamente estes mecanismos que as apps podem, sem intenção, alimentar. Quem já “regista” mentalmente cada noite pode receber, com a monitorização do sono, uma confirmação adicional - aparentemente objectiva - das suas preocupações.
Como ter uma relação mais descontraída com a tecnologia
Nem toda a gente precisa de abandonar os wearables. Muitas pessoas conseguem lidar muito melhor com os dados do sono seguindo algumas regras simples:
- Não ver a pontuação de sono todas as manhãs; no máximo, uma vez por semana.
- Dar mais valor ao que o corpo sente do que aos números.
- Usar os dados para tendências de longo prazo, e não para avaliação diária.
- Activar modo nocturno ou “não incomodar”, para evitar sinais e vibrações durante a noite.
Se, ainda assim, a sensação for de maior pressão, normalmente é preferível deixar o relógio de lado à noite. Dormir exige confiança - no próprio corpo, não num ecrã.
O estudo de Bergen sublinha como este tema é sensível: uma tecnologia que ajuda muitas pessoas pode fazer mal a outras quando a fixação nos números é excessiva. Em especial na insónia, compensa olhar com espírito crítico para a forma como se usam estas ferramentas - e, por vezes, ter a coragem de deixar o sono voltar a ser apenas sono.
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