Alunos que entram numa disciplina a contar que a IA vai tornar a escrita mais fácil acabam, muitas vezes, por tropeçar numa realidade desconfortável: não torna.
Um estudo recente que acompanhou estudantes de licenciatura a aprender a escrever com ferramentas de IA concluiu que a tecnologia não diminui as exigências da escrita - apenas as desloca.
O raciocínio, a avaliação crítica e as escolhas sobre o que é relevante continuam do lado humano. O que muda é tudo o que está à volta.
A investigação foi conduzida por Abram Anders, professor associado de Inglês na Iowa State University, e por Emily Dux Speltz, professora auxiliar no Departamento de Humanidades e Comunicação da Embry-Riddle Aeronautical University.
O estudo acompanhou 38 estudantes de licenciatura, provenientes de 22 cursos diferentes, ao longo de dois semestres.
Os investigadores recorreram a uma unidade curricular experimental chamada “IA e Escrita”, na qual os alunos registaram de que forma as suas suposições sobre escrita e IA iam mudando à medida que trabalhavam com ferramentas generativas.
As suposições com que os estudantes chegam
A maioria dos alunos entrou com uma crença semelhante: ferramentas melhores significam menos esforço. A IA trataria da escrita.
Essa ideia não resistiu ao confronto com o trabalho real.
“Os estudantes esperam muitas vezes que a IA funcione como um atalho, mas a verdade é que a escrita assistida por IA exige mais reflexão por parte dos estudantes, não menos”, afirmou Anders.
“Como ferramenta, a IA só trata da escrita à superfície, e o verdadeiro trabalho pesado - formação de ideias, julgamento, estratégia de revisão e controlo de qualidade - continua com o estudante que escreve.”
No início, muitos alunos abordaram a IA como abordam um motor de pesquisa: introduzem algo vago e aproveitam o que vier.
O que descobriram, porém, foi que obter resultados úteis implicava planear, ser preciso e ter uma noção clara do que, de facto, queriam dizer. Em suma, as mesmas competências que sempre estiveram no centro da boa escrita.
Escrever com IA continua a ser um processo experimental
Os investigadores identificaram três “conceitos-limiar” - mudanças de pensamento fundamentais de que os estudantes precisavam para usar a IA de forma eficaz.
O primeiro consistia em aceitar que escrever com IA é, por natureza, experimental. Não existe um prompt perfeito que gere, à primeira tentativa, o parágrafo certo.
O processo passa por testar, ajustar e voltar a tentar. Os estudantes que esperavam o contrário sentiam frustração repetidamente; quando deixaram de o esperar, começaram a avançar.
“A IA não vai dar uma resposta ‘perfeita’ nem cuspir automaticamente aquilo de que precisa”, disse Anders. “Exige tentativa e erro - tentar, testar, rever e tentar de novo.”
A IA soa competente mesmo quando não é
O segundo conceito-limiar era mais exigente: perceber que a IA pode soar competente mesmo quando não o é.
As frases vêm limpas, o tom é seguro, os parágrafos parecem coerentes. Mas nada disso garante que o conteúdo seja correcto, profundo ou sequer pertinente para o argumento que se pretende construir.
Os investigadores chamam a isto a “armadilha da fluência” - o perigo de confundir linguagem polida com compreensão genuína.
Os estudantes que aprenderam a ler criticamente o que a IA devolvia, questionando afirmações em vez de se limitarem a dar um retoque na prosa, passaram de utilizadores passivos a algo mais próximo de editores, com verdadeira autoridade sobre o próprio trabalho.
“É crucial que os estudantes aprendam a interrogar o que a IA produz e não apenas a editá-lo”, afirmou Anders.
“Isto significa verificar afirmações, afinar a lógica e garantir que a escrita cumpre expectativas diferentes consoante as disciplinas - trabalho que exige julgamento humano.”
Impossibilidade de gerar propósito
O terceiro conceito-limiar tinha a ver com autoria e responsabilidade. A IA consegue gerar texto, mas não consegue gerar propósito.
Não sabe para que serve um argumento, o que o autor realmente defende, nem por que razão aquilo importa. Quando os estudantes compreenderam esse limite, deixaram de delegar a escrita e passaram a orientá-la.
“Os estudantes têm de reconhecer que, embora a IA consiga gerar texto, não consegue gerar propósito - só o escritor o pode fazer”, disse Anders.
“A IA generativa não consegue decidir o que está a defender, o que importa ou por que razão a escrita existe. É uma ferramenta que exige direcção humana, julgamento e limites.”
Uma mudança de atitude e de uso
No final da unidade curricular, os estudantes que tinham atravessado os três conceitos-limiar usavam a IA de outra forma.
Em vez de a tratarem como uma máquina que escreve por eles, passaram a encará-la como algo mais próximo de um parceiro de raciocínio.
A IA era usada para explorar alternativas, pôr ideias à prova e levar argumentos mais longe do que conseguiriam sozinhos.
Um estudante resumiu-o assim: “Tive de aprender a pensar sobre o meu pensamento.”
É um tipo de relação com a tecnologia diferente daquela que a maioria das pessoas desenvolve por conta própria.
“A IA muda o fluxo de trabalho, mas não altera o facto de que escrever é pensar”, afirmou Anders.
“Os estudantes continuam a ter de tomar decisões, definir direcção e dar forma ao significado. Quando os estudantes aprendem a orientar a IA em vez de depender dela, tornam-se escritores mais fortes, e essa é a competência que vai importar muito depois de as ferramentas mudarem”, concluiu.
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