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O novo túnel rodoviário mais longo do mundo na China: Qinling, Shaanxi

Engenheiro de capacete e colete a verificar dados num tablet à entrada de túnel rodoviário na montanha ao pôr do sol.

A primeira imagem que os condutores encontram é uma boca de betão aberta numa encosta nua, recortada na montanha e envolta por projetores, névoa de inverno e humidade fria. Os camiões aproximam-se com prudência e vão desaparecendo, um a um, num túnel que parece não ter fim. Lá em cima, faixas vermelhas agitam-se ao vento, exaltando a força nacional e a «felicidade do povo», enquanto agentes de segurança à paisana observam o pequeno grupo que filma tudo com o telemóvel. Alguns aplaudem. Outros limitam-se a olhar. Um homem resmunga que nunca vai atravessar aquilo - nem uma única vez.

Bem debaixo das colinas do centro da China, um megaprojeto do século XXI acabou de acender as luzes - e, com isso, reacendeu uma discussão que vai muito além dos mais de 20 quilómetros de betão.

O novo túnel da China rumo ao futuro - ou um buraco caro na montanha?

Dizer que este é o túnel rodoviário mais longo do mundo, atravessando as montanhas Qinling na província de Shaanxi, soa a título técnico - até se estar mesmo junto à entrada. O que se ouve é o eco das buzinas no ar frio; o que se sente é o sabor do gasóleo a ficar no fundo da garganta; e debaixo dos pés há uma vibração constante quando os primeiros comboios de veículos avançam. Funcionários locais posam para fotografias, sorridentes, ao lado de um ecrã LED luminoso que vai somando os primeiros 1.000 veículos.

Nas redes sociais chinesas, os vídeos da inauguração repetem-se em loop. Nos comentários, o orgulho convive com a ironia - e essa fricção diz muito sobre o momento.

Integrado numa rede mais ampla de autoestradas que pretende ligar o leste densamente povoado ao interior ocidental mais pobre, este túnel terá custado o equivalente a milhares de milhões de dólares e exigiu anos de perfuração, explosões controladas e prazos adiados. A televisão estatal foca-se em sinais de segurança brilhantes, filas intermináveis de iluminação LED e poços de ventilação impecáveis. Já no Weibo e no Douyin, há utilizadores a partilhar capturas de documentos orçamentais e mapas, com uma pergunta direta: afinal, para quem é isto?

Uma publicação que se tornou viral mostra um casal idoso, numa aldeia remota, com vista para a via rápida. Em casa não há aquecimento central, não há carro, e o neto foi para uma cidade costeira trabalhar numa fábrica. A legenda diz: «O túnel passa pela nossa casa, mas a nossa vida não passou esta montanha.»

Por trás do rótulo orgulhoso de «o mais longo do mundo», esconde-se um debate mais desconfortável sobre custos, prioridades e poder. Dentro do país, há quem questione a aposta em infraestruturas de prestígio quando muitos governos locais estão soterrados em dívida e a despesa social sofre pressão. Fora da China, analistas interpretam a obra como mais uma peça da estratégia de Pequim para coser o território com asfalto e betão - e depois exportar essa lógica através da Iniciativa Faixa e Rota. Um túnel escavado na rocha também pode ser uma mensagem gravada na geopolítica.

A engenharia pode impressionar. Já o momento escolhido parece bem menos linear.

Simulações de segurança, dúvidas escondidas e a longa sombra dos megaprojetos

No papel, o túnel é apresentado como um monumento ao planeamento de segurança: várias saídas de emergência, deteção de incêndio de alta tecnologia, câmaras alinhadas como contas num fio. Nos vídeos de formação, equipas de coletes laranja correm por corredores imaculados, treinando evacuações caso um camião cisterna arda a meio da travessia. Existem áreas de abrigo identificadas, ventiladores para extração de fumo e iluminação por cores que muda num instante durante uma crise. A experiência é desenhada para parecer tão controlada quanto voar num avião.

Na semana de abertura, os condutores recebem folhetos com instruções claras para o interior: reduzir a velocidade, não mudar de faixa, manter distância, não entrar em pânico.

Esse guião bem arrumado colide com um histórico real de acidentes de infraestruturas que marcou a memória pública. Muitos recordam o desastre do comboio de alta velocidade em Wenzhou, em 2011, as inundações dramáticas em túneis durante as tempestades de Henan, em 2021, e os engavetamentos em autoestradas com nevoeiro cerrado. Essas imagens pairam sobre qualquer nova proclamação de «o maior do mundo». Em grupos locais de conversa, multiplicam-se receios práticos: e se faltar a eletricidade? E se houver um incêndio? E se um sismo forte fizer tremer milhares de parafusos e anéis de betão?

Numa história muito partilhada, um motorista de logística diz que vai «esperar um ano» antes de usar este trajeto com a família. Por agora, escolhe a estrada antiga, mais lenta, que serpenteia por cima - mesmo com curvas apertadas e risco de queda de rochas. Não é uma rejeição do progresso. É, acima de tudo, falta de confiança plena nas promessas.

A resposta oficial aposta fortemente na garantia técnica. Engenheiros sublinham a monitorização da qualidade do ar em tempo real, aspersores automáticos, câmaras térmicas capazes de detetar um disco de travão sobreaquecido antes de se transformar numa bola de fogo. Mas a inquietação não é só sobre equipamento. É sobre saber se as regras vão mesmo ser aplicadas quando deixarem de filmar e quando as comitivas VIP regressarem a casa. Sejamos francos: quase ninguém lê o folheto de emergência do princípio ao fim antes de se meter no trânsito.

A pergunta crua, lá no fundo, é esta: quem assume a responsabilidade se algo correr mal, num espaço sem saídas fáceis e sem ajuda rápida? É na distância entre os esquemas brilhantes e a realidade do dia a dia que o medo ganha forma.

De passagem de montanha a montra global: o que este túnel está realmente a comunicar

Ao ver com atenção a cobertura dos média estatais, o túnel parece menos um atalho local e mais um espaço de exposição. Os repórteres demoram-se em mapas gigantes, onde a nova ligação encaixa com precisão em autoestradas transversais e corredores de mercadorias que apontam para a Ásia Central e, mais tarde, para mercados europeus. A mensagem visual é inequívoca: não se trata apenas de agricultores em Shaanxi chegarem mais depressa a uma cidade maior. Trata-se de a China encurtar o percurso entre as suas fábricas e o mundo.

Há também um gesto discreto, mas revelador: jornalistas estrangeiros e diplomatas são convidados para visitas guiadas e cuidadosamente coreografadas, de capacete na cabeça e câmaras na mão - tão público-alvo quanto convidados.

Ao mesmo tempo, o projeto surge num período em que muitas famílias chinesas se sentem apertadas. O desemprego jovem é elevado, os preços da habitação vacilam, pequenas empresas têm dificuldades. É aquela sensação comum de quando a novidade reluzente da cidade parece um pouco desalinhada com a própria conta bancária. Em fóruns chineses, aparecem montagens lado a lado: de um lado, um interior de túnel deslumbrante; do outro, hospitais com falta de financiamento, escolas sobrelotadas ou salários em atraso numa cidade média.

Ninguém discute o benefício base de estradas mais seguras e rápidas. A irritação nasce da perceção de que os megaprojetos raramente respondem às vozes locais que pedem melhorias mais modestas, mas urgentes.

Um académico baseado em Pequim, falando sob pseudónimo à imprensa estrangeira, resumiu de forma direta:

«Chegámos à fase em que cada novo túnel, cada nova ponte, faz dois trabalhos ao mesmo tempo: mover tráfego e enviar uma mensagem. A mensagem é que a China é imparável. O risco é começarmos a acreditar mais no nosso próprio slogan do que a escutar os nossos cidadãos.»

Dentro da China, alguns comentadores alertam que esta obsessão pela escala pode reduzir a sensibilidade aos custos de longo prazo. Apontam, por exemplo, para:

  • A subida da dívida local associada a plataformas de financiamento de infraestruturas
  • Contas de manutenção que disparam uma década depois do dia de abertura
  • Pressão política para continuar a construir projetos «os maiores do mundo»

Esses críticos não são contra o desenvolvimento. O que questionam é se o prestígio está, discretamente, a passar à frente da resiliência - tanto dentro do país como na corrida global por influência.

Um túnel que levanta mais perguntas do que respostas

Para quem conduz, o túnel tem algo de hipnótico. Entra-se sob um céu cinzento e, durante o que parece um intervalo interminável, vive-se num mundo de azulejos brancos, luzes ritmadas e o zumbido constante dos pneus no asfalto liso. O sinal de rádio falha e regressa. As aplicações de navegação atrasam-se. O tempo alonga-se. Quando, por fim, se sai para a luz do dia, o primeiro impulso é semicerrar os olhos, encher os pulmões e confirmar o telemóvel. Os comentários de quem passou no primeiro dia chegam a ser quase poéticos: «como estar dentro dos pulmões de uma máquina», escreveu um; «ou dentro do futuro, mas sem saber de quem é esse futuro».

Talvez a verdadeira notícia esteja nessa sensação: deslumbramento com um travo de dúvida.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Túnel rodoviário mais longo do mundo Símbolo da ambição de engenharia e política da China Ajuda a interpretar as manchetes por trás do rótulo recordista
Preocupações com segurança e custos Sistemas de alta tecnologia vs. memórias públicas de desastres passados e dívida local Oferece uma lente para avaliar futuros megaprojetos com maior espírito crítico
Implicações para o poder global Nova ligação em rotas de logística internas e da Iniciativa Faixa e Rota Mostra como a infraestrutura molda a geopolítica, não apenas as deslocações

Perguntas frequentes:

  • Isto é mesmo o túnel rodoviário mais longo do mundo? As autoridades chinesas dizem que passou a liderar as classificações globais em comprimento para um túnel rodoviário, ultrapassando projetos europeus e japoneses bem conhecidos, embora os números exatos e a verificação internacional continuem a gerar debate.
  • Onde fica o túnel na China? Atravessa as montanhas Qinling, na província de Shaanxi, uma barreira natural historicamente vista como uma linha de separação aproximada entre o norte e o sul da China.
  • Porque é que há preocupação com a segurança? A inquietação pública vem de inundações em túneis, engavetamentos e acidentes de transporte no passado, além do receio de incêndios, falhas de energia ou sismos num espaço tão fechado.
  • Como se liga isto às ambições globais da China? O túnel encaixa em autoestradas que suportam a logística interna e, a longo prazo, rotas comerciais associadas à Iniciativa Faixa e Rota, reforçando o papel da China como centro de produção e exportação.
  • O que devem saber os viajantes antes de atravessar? É recomendado circular a velocidade reduzida, evitar mudanças de faixa, manter distância sobretudo de camiões e manter a calma em caso de paragem, seguindo as instruções do pessoal do túnel e a sinalização luminosa.

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