Perante os surtos de Ebola, não é habitual termos duas boas notícias na mesma semana.
Por um lado, foi anunciado novo financiamento até US$62 milhões para acelerar o desenvolvimento de candidatos a vacina contra o tipo de vírus que está a circular na República Democrática do Congo (RDC) e no Uganda, país vizinho.
Por outro, as autoridades reduziram os números confirmados de mortes e de casos de Ebola na região.
À data de 2 de junho (hora local), as autoridades de saúde da RDC comunicaram 344 casos confirmados, incluindo 60 mortes confirmadas relacionadas. O Uganda notificou 15 casos confirmados, incluindo uma morte. Antes desta revisão, os casos suspeitos na região ultrapassavam 1.000.
A seguir, o que se sabe sobre os três candidatos a vacina anunciados esta semana - e porque ainda falta um longo caminho até este surto preocupante ficar verdadeiramente controlado.
Já não existem vacinas contra o Ebola?
Sim. Existem duas vacinas aprovadas contra o Ebola: Ervebo e Zabdeno/Mvabea.
Ambas são eficazes e estão aprovadas para proteger especificamente contra o vírus Ebola Zaire. Contudo, o vírus que está agora a circular na RDC e no Uganda é diferente: o vírus Ebola Bundibugyo.
O problema é que tipos distintos de vírus Ebola apresentam proteínas de superfície diferentes - e é precisamente nessas proteínas que as vacinas actuais se focam. Por isso, as vacinas desenvolvidas para o vírus Zaire não são suficientemente eficazes para serem usadas contra o vírus Bundibugyo.
O financiamento agora anunciado, atribuído pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations, pretende acelerar o desenvolvimento da primeira vacina humana aprovada dirigida especificamente ao vírus Bundibugyo.
Este apoio inclui facilitar a realização de ensaios clínicos o mais rapidamente possível, para que - caso a vacina se revele segura e eficaz - possa ser disponibilizada com a maior rapidez.
Eis o que se sabe sobre os três candidatos a vacina.
1. Vacina da IAVI
Um painel de peritos da Organização Mundial da Saúde (OMS) descreveu este candidato como "o candidato a vacina mais promissor".
Trata-se de uma vacina de dose única, desenvolvida pela International AIDS Vaccine Initiative (IAVI) em colaboração com a University of Texas Medical Branch. A estratégia utilizada é semelhante à da vacina aprovada Ervebo.
Este candidato já foi testado em macacos macacos-de-cheiro (macaques), tendo demonstrado protecção contra o vírus Bundibugyo.
No entanto, ainda não foi testado em humanos. De acordo com o painel de peritos da OMS, os ensaios clínicos deverão estar a cerca de sete a nove meses de distância.
2. Vacina da Moderna
Este candidato pertence à mesma empresa farmacêutica, sediada nos Estados Unidos, que produz uma das vacinas aprovadas contra a COVID baseada em mRNA. A empresa tem também uma vacina de mRNA aprovada contra o vírus sincicial respiratório (VSR).
A Moderna está a desenvolver uma vacina baseada em mRNA que visa a glicoproteína de superfície do vírus Bundibugyo.
Segundo a empresa, o financiamento mais recente irá apoiar estudos pré-clínicos (isto é, estudos em animais ou em laboratório) e ensaios clínicos em humanos.
3. Vacina da Universidade de Oxford
O terceiro candidato está a ser desenvolvido pela Universidade de Oxford e pelo Serum Institute of India. Baseia-se, no essencial, na mesma tecnologia usada na vacina contra a COVID da Oxford/AstraZeneca.
Os testes deste candidato estão, na prática, apenas a começar. E o painel de peritos da OMS indicou que são necessários dados adicionais em animais. Ainda assim, afirmou que este candidato pode avançar para ensaios clínicos em humanos dentro de dois a três meses.
Se for bem-sucedida, os peritos salientaram que uma dose única poderá ser adequada para contactos de casos de Ebola. Porém, para populações de alto risco mas ainda não expostas - como profissionais de saúde e equipas de resposta na linha da frente - poderá ser considerada a administração de duas doses.
Este grupo já produziu vacinas contra outro tipo de vírus Ebola, as quais foram testadas em ensaios clínicos humanos de fase inicial.
E agora, qual é o próximo passo?
O desenvolvimento de vacinas para doenças como o Ebola enfrenta inúmeros desafios.
É necessário demonstrar que são seguras e eficazes, obter aprovação regulamentar, produzir em escala e, depois, assegurar o transporte e a administração às pessoas.
Além disso, tendo em conta algumas dificuldades na adesão à vacinação, bem como a percepção negativa e a desinformação associadas às vacinas, pode tornar-se mais difícil recrutar participantes para ensaios clínicos.
Isto é particularmente relevante em estudos com voluntários saudáveis, que muitas vezes são realizados em países muito distantes das áreas afectadas.
Nas fases mais avançadas, os ensaios clínicos são tipicamente conduzidos na região afectada. Porém, estas zonas são frequentemente remotas, com recursos de saúde limitados e, por vezes, inseridas em contextos de conflito. Tudo isto torna ainda mais difícil realizar os ensaios necessários para comprovar que os candidatos a vacina são seguros e eficazes.
Uma vacina teria um impacto muito significativo na capacidade de controlar este surto. Também seria uma ferramenta valiosa para proteger e responder a futuros surtos do vírus Bundibugyo.
No entanto, até existir uma vacina deste tipo, as medidas básicas de controlo de infecção continuarão a ser a principal forma de travar o surto actual.
Paul Griffin, Professor, Doenças Infecciosas e Microbiologia, The University of Queensland
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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