WASHINGTON (AP) – Enquanto milhões de adeptos de futebol vibram ou se irritam com os jogos do Campeonato do Mundo disputados pela América do Norte, as autoridades de saúde vão estar em alerta máximo por causa dos micróbios.
A vaga de calor poderá ser a ameaça para a saúde mais óbvia.
Ainda assim, as doenças infecciosas conseguem propagar-se em ambientes cheios de gente, e os especialistas preparam-se para observar de perto as águas residuais, as idas aos hospitais e até as redes sociais, à procura de qualquer indício de que possa estar a formar-se um surto.
O sarampo, uma das doenças mais contagiosas, está entre as principais preocupações e motivou, esta semana, um aviso da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, na sigla em inglês PAHO).
Multidões, calor e um calendário longo
Com quase seis semanas de estádios cheios, bares lotados e pontos turísticos concorridos em 16 cidades, as equipas de saúde pública monitorizam uma extensa lista de infeções - desde o norovírus, um conhecido “vírus do estômago”, até à dengue, transmitida por mosquitos.
"Isto é, verdadeiramente, uma maratona", afirmou Palak Raval-Nelson, comissária de saúde de Filadélfia.
Numa fase em que os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) já lidavam com um surto de Ébola em crescimento na África Central e com um surto de hantavírus ligado a um navio de cruzeiro, a pressão sobre os recursos de saúde pública aumentou.
Embora responsáveis do CDC tenham orientado discretamente os departamentos de saúde estaduais e locais, o painel de vigilância de doenças esperado para o Campeonato do Mundo continuava "em desenvolvimento final" a poucos dias do arranque dos jogos, segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos.
"Os nossos profissionais de saúde pública estão bastante sobrecarregados", disse a especialista em saúde global Rebecca Katz, da Universidade de Georgetown, que está a liderar um novo e invulgar centro de apoio.
Um centro para detetar sinais precoces
No Health Security Operations Center - uma iniciativa conjunta entre Georgetown e a MedStar Health - as equipas estão a analisar dados de todo o país para poderem alertar as autoridades de saúde e até os serviços de urgência sobre sinais precoces de problemas.
O centro está a produzir relatórios diários de “situação” sobre tendências de doenças nas cidades anfitriãs do Campeonato do Mundo e nos locais-base das seleções. Esses relatórios são enviados a várias centenas de entidades que aderiram, incluindo grupos de saúde pública locais e federais, responsáveis pela gestão de emergências, dirigentes hospitalares e outros.
"É importante que não nos tornemos alarmistas", disse o médico Dr. Shane Kappler, especialista em medicina de urgência da MedStar.
"Estamos a tentar ser a apólice de seguro."
Sarampo: uma preocupação de topo no Campeonato do Mundo
O sarampo está entre as maiores inquietações quanto a uma eventual propagação durante o Campeonato do Mundo.
Segundo o CDC, este ano já houve mais de 2.000 casos de sarampo nos Estados Unidos - quase tantos como em todo o ano passado.
Os doentes podem transmitir sarampo antes de surgir a erupção cutânea e antes de perceberem que estão doentes. Até há relativamente pouco tempo, os EUA raramente viam sarampo, exceto em resultado de viagens internacionais de pessoas não vacinadas.
Agora, com surtos frequentes no país, "na verdade, muitos dos nossos parceiros internacionais estão preocupados com a possibilidade de o sarampo lhes ser exportado após os jogos", afirmou Katz, de Georgetown.
O sarampo também está a propagar-se no Canadá e já ultrapassou os 11.000 casos no México, de acordo com a OPAS.
A organização está a incentivar os adeptos de futebol a confirmarem que têm a vacinação em dia, sublinhando numa campanha de saúde que um único doente com sarampo pode transmitir o vírus a até 18 pessoas desprotegidas.
Ébola e outras ameaças infecciosas
O Dr. Craig Spencer, da Universidade Brown - que sobreviveu ao Ébola enquanto trabalhava no surto da África Ocidental há mais de uma década - disse que lhe têm perguntado repetidamente sobre o risco de Ébola durante o Campeonato do Mundo, mas que "para mim, o Ébola não é a ameaça n.º 1 nem a n.º 2 nem sequer a n.º 3".
"Estou preocupado com a importação de sarampo, estou muito mais preocupado com a importação de outras ameaças infecciosas que podem não nos parecer tão assustadoras como o Ébola", afirmou Spencer.
Muitos especialistas em saúde concordam que o risco de o Ébola se propagar nos EUA é muito baixo.
Isso deve-se, em parte, aos rastreios de viagem e às restrições governamentais aplicadas a pessoas que estiveram recentemente em áreas afetadas por surtos. Além disso, o Ébola transmite-se pelo contacto com fluidos corporais de alguém com sintomas, e não pelo ar como o sarampo ou outros vírus respiratórios.
"Uma coisa feliz neste vírus é que a fase de maior contagiosidade ocorre quando a pessoa está realmente muito doente", disse Jennifer Nuzzo, diretora do Pandemic Center da Universidade Brown.
"Não é como a COVID, em que se pode estar sentado ao lado de alguém que nem sequer sabe que está infetado e talvez contrair o vírus."
Como se vigia: águas residuais, mosquitos e outros sinais
Há antecedentes de micróbios a infiltrarem-se em grandes eventos desportivos.
Cientistas canadianos associaram um surto comunitário de sarampo aos Jogos Olímpicos de 2010, em Vancouver, e houve conjuntos de casos de norovírus que tiveram de ser controlados nos Jogos Olímpicos deste ano, em Milão, e também em 2018, na Coreia do Sul.
Uma das formas de detetar sinais de problemas passa pelas águas residuais: pessoas com determinadas infeções virais ou bacterianas eliminam material genético que pode ser identificado por testes avançados.
Por exemplo, o sarampo pode surgir nas águas residuais dias antes de as urgências receberem os primeiros doentes.
Os relatórios de vigilância desta semana, produzidos pelo centro coordenado por Katz, referem que testes recentes a águas residuais detetaram rotavírus (que provoca diarreia), hepatite A e norovírus em algumas zonas dos EUA - algo a acompanhar à medida que chegam multidões para os jogos.
Em Dallas, as autoridades intensificaram o rastreio em águas residuais, incluindo no aeroporto internacional, adotando uma abordagem abrangente em vez de procurarem doenças específicas, explicou o Dr. Phil Huang, diretor do Dallas County Health and Human Services.
A equipa de Huang também está a reforçar a testagem habitual de mosquitos, procurando não só o vírus do Nilo Ocidental - que circula regularmente nos EUA - como também vírus mais comuns noutros países, como a dengue e a chikungunya.
Preparação das cidades anfitriãs
As autoridades de saúde pública preparam-se há meses, referiu Raval-Nelson, de Filadélfia, incluindo com simulações de emergência e contactos com homólogos de todo o país.
"Não quero passar a mensagem de que existe uma coisa-chave", disse.
"Temos os enquadramentos montados para executar o que for necessário."
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