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A mancha fria do Atlântico Norte indica que a AMOC se aproxima de um ponto de viragem perigoso

Homem junto ao mar num barco a analisar dados num tablet com boias laranja na água ao fundo.

A anomalia da mancha fria no Atlântico Norte

Há uma anomalia invulgar no Atlântico Norte, mesmo a sul da Gronelândia: uma “mancha fria” no oceano e no ar que está a arrefecer, enquanto praticamente todo o resto do planeta aquece.

Uma nova análise desta mancha fria aponta agora para um problema climático grave e iminente.

Uma equipa internacional de investigadores recorreu a dados de satélite, registos de reanálise e informação sobre o conteúdo de calor do oceano - incluindo séries com dados desde 1955 - para identificar quais os factores que estão a alimentar este fenómeno.

Até aqui, existiam duas hipóteses principais: ou as correntes oceânicas estão a transportar menos calor para a região, ou então o oceano local está a perder mais calor pela superfície.

Os resultados obtidos favorecem claramente a primeira explicação e, com base nisso, os autores defendem que estamos agora muito perto de um ponto de viragem perigoso.

O que os dados revelam sobre o enfraquecimento da AMOC

Segundo os investigadores, a mancha fria do Atlântico é um sinal de enfraquecimento da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC).

Há indícios de que este sistema pode mesmo vir a parar por completo - um cenário que, de acordo com previsões, teria impactos no planeta muito mais severos do que um simples “ponto frio” no oceano.

"Given the well-established existence of a tipping point of the AMOC, as well as recent studies finding a range of different 'early warning signals' of the ocean circulation approaching such a tipping point, the strong evidence for a weakening AMOC is a serious concern for society and policy," write the researchers in their published paper.

A equipa concluiu que o arrefecimento está associado a processos em profundidade, ligados às correntes submarinas. Na verdade, o estudo mostra que a perda de calor à superfície naquela zona diminuiu, o que significa que o problema não é estar a escapar mais calor - é estar a chegar menos.

Tendo em conta que esta mancha fria fica precisamente no topo da “passadeira rolante” de água em turbilhão que constitui a AMOC, faz sentido que as temperaturas desçam à medida que a AMOC enfraquece e empurra menos água quente dos trópicos e do equador para latitudes mais a norte.

Já estudos anteriores tinham estabelecido que a AMOC está a abrandar e a perder força. Esta investigação acrescenta algumas das evidências mais robustas até ao momento de que a mancha fria e esta vasta circulação oceânica estão directamente ligadas.

A conclusão também é coerente com um estudo de 2025 que, em vez de dados históricos do mundo real, usou modelos climáticos para associar a AMOC à zona de água mais fria - igualmente conhecida como o “buraco de aquecimento” do Atlântico Norte.

"The observed cooling trend cannot be explained by surface heat flux changes," write the authors of this new study.

"Multidecadal heat content variations are generally larger and more tightly correlated with ocean heat transport than with surface heat flux variability."

O que pode acontecer se a AMOC entrar em colapso

Com a causa de fundo da mancha fria do Atlântico mais esclarecida, a questão passa a ser: o que vem a seguir? Infelizmente, à luz dos melhores modelos disponíveis, o cenário é preocupante. De forma geral, os cientistas concordam que a AMOC se aproxima gradualmente de um ponto de viragem no seu enfraquecimento e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por desaparecer.

Uma combinação de aquecimento das águas oceânicas e de degelo de glaciares (que libertam água doce para os oceanos) está a alterar o equilíbrio que mantém a AMOC em funcionamento.

Se este sistema viesse a cessar totalmente, seria expectável que a Europa enfrentasse invernos muito mais frios e rigorosos, além de alterações significativas nos padrões meteorológicos globais, nos ecossistemas e na segurança alimentar.

"While large uncertainty remains over how close the Earth is to this tipping point, standard CMIP6 simulations of future global warming scenarios suggest it is crossed in a substantial subset of these model simulations around the middle of this century," write the researchers.

A AMOC só é monitorizada directamente desde 2004, o que deixa os cientistas com um registo demasiado curto para definir com clareza a trajectória de longo prazo do enfraquecimento recente.

Ainda assim, com modelos climáticos como os do CMIP6 (Coupled Model Intercomparison Project Phase 6), é possível, pelo menos, antecipar e preparar o que poderá suceder caso a AMOC abrande até parar - como vários estudos têm vindo a sugerir.

"This risk requires urgent attention by policymakers," conclude the study authors.

A investigação foi publicada na revista Geophysical Research Letters.

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