Os automóveis nunca estiveram tão bem armados em matéria de segurança. Hoje multiplicam-se os airbags, os radares, as câmaras e os sistemas eletrónicos que acompanham cada gesto ao volante. Há carros que travam por iniciativa própria, se mantêm na faixa, leem sinais de trânsito, detetam peões e até nos alertam quando a fadiga começa a pesar.
Ainda assim, continua a faltar uma resposta realmente eficaz para aquilo que, na minha perspetiva, é um dos maiores riscos na estrada: o telemóvel.
Telemóvel ao volante visto de uma mota
Reparto os meus dias entre conduzir um carro e andar de mota. E é precisamente em cima da mota que ganho a melhor visão do que vai dentro dos automóveis.
Dou por mim a ver condutores a escrever mensagens, a percorrer redes sociais, a gravar áudios e, por vezes, até em videochamadas ou a ver vídeos. Sim, vídeos. No meio disto tudo, se sobrar tempo, lá vão «conduzindo».
É difícil não ficar surpreendido com a quantidade de pessoas que tratam a condução como se fosse uma tarefa acessória. Como se o carro fosse apenas o pano de fundo onde se desenrolam todas as outras obrigações do dia. Para quem vive assim, porque não optar por transportes públicos ou por TVDE?
E os ADAS a «vê-los passar»
Enquanto este cenário acontece, os carros atuais apitam por tudo e por nada. Apitam porque nos encostámos demais ao traço contínuo, porque nos aproximámos do veículo da frente, porque passámos a velocidade indicada numa placa que nem sequer coincide com o limite válido, porque desviámos ligeiramente o olhar. Só falta apitarem porque respiramos mais fundo.
Em certos modelos, a sensação é a que o Guilherme Costa descreveu de forma particularmente certeira: uma sogra eletrónica permanentemente instalada no banco do passageiro.
E a ironia é evidente: com todo este arsenal tecnológico, o problema dos telemóveis - que tanto alimenta a distração ao volante - continua por resolver. E não me digam que os sistemas de monitorização da atenção do condutor são a solução. Não são.
Monitorização da atenção do condutor: uma resposta imperfeita
Na prática, muitos destes sistemas estão longe de ser infalíveis. Em alguns casos, têm dificuldade em interpretar corretamente o que o condutor está a fazer quando este usa óculos escuros. Noutros, confundem uma distração verdadeira com a simples utilização dos comandos, cada vez mais complicados, do sistema de climatização ou com a navegação pelos inúmeros menus que os fabricantes insistem em «esconder» nos ecrãs táteis.
Tecnologia para quê?
Há ainda uma pergunta que me persegue sempre que vejo tantos condutores agarrados ao telemóvel: como é possível que, em pleno século XXI - quando praticamente qualquer automóvel emparelha um telefone em segundos - continuemos a encontrar tanta gente a conduzir com o telefone na mão durante uma chamada?
Temos Bluetooth, Android Auto e Apple CarPlay. Existem comandos por voz e sistemas mãos-livres de série, até nos modelos mais acessíveis. Nunca houve tantas alternativas. E, mesmo assim, há quem continue a encostar o telemóvel ao ouvido enquanto conduz, como se estivesse a usar um telefone fixo.
No fundo, não é uma limitação tecnológica; é uma questão de comportamento. E talvez seja precisamente por isso que fabricantes e legisladores continuam sem conseguir encontrar uma medida verdadeiramente eficaz.
É relativamente simples criar um sistema capaz de identificar a via de rodagem ou um peão; muito mais difícil é corrigir uma escolha errada tomada de forma consciente por uma pessoa.
Talvez seja por isso que o Governo se prepara para recuperar a Brigada de Trânsito, mas, perante a dimensão do problema, receio que seja - como diz o ditado - muito pouco e muito tarde.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário