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Descobertas na Via Pietralata revelam túmulos e santuário de Hércules em Roma com mais de 2.400 anos

Arqueólogo examina relevo antigo de homem nu em escavação arqueológica ao ar livre.

As obras na estrada num bairro moderno trouxeram à luz um recinto sagrado cuidadosamente planeado, onde, em tempos, um poderoso herói-deus terá velado pelos mortos de uma rica família romana.

Um santuário escondido à beira da cidade

Arqueólogos a trabalhar nas imediações da Via Pietralata, no nordeste de Roma, identificaram dois túmulos ricamente preparados com mais de 2.400 anos, juntamente com o que parece ser um santuário dedicado a Hércules. O conjunto fica para lá do traçado das antigas muralhas de Roma, numa zona hoje ocupada por habitação e infraestruturas contemporâneas.

As descobertas integram-se numa área arqueológica mais ampla, conhecida desde a década de 1990, mas apenas escavada de forma sistemática nos últimos anos. A etapa mais recente começou em 2022, sob direcção do arqueólogo do Estado Fabrizio Santi, depois de novas obras terem levado a escavações de salvamento.

"O sítio reúne sepultamentos de elite, um santuário, tanques de água monumentais e uma via antiga - tudo comprimido numa única faixa suburbana."

Responsáveis do Ministério da Cultura de Itália indicam que o local funcionou como complexo funerário e de culto desde o final do século V ou início do século IV a.C. até ao século I d.C., atravessando a transição de Roma da República para o Império.

Túmulos de elite da República Romana

Os achados mais marcantes são dois túmulos de câmara associados ao período da República Romana. A arquitectura e o recheio sugerem que pertenciam a uma gens abastada - uma família alargada, pilar essencial da organização social romana.

O que foi encontrado nas sepulturas

Num dos túmulos havia um sarcófago de pedra e três urnas de cremação, o que aponta para práticas funerárias distintas no seio da mesma linha familiar. A segunda câmara guardava o esqueleto de um homem adulto, depositado para inumação, e não para queima.

  • Túmulo 1: câmara com sarcófago de pedra
  • Sepultamentos adicionais: três urnas de cremação colocadas ao lado
  • Túmulo 2: câmara com o esqueleto de um homem adulto
  • Estatuto social: compatível com uma família rica, provavelmente proprietária de terras

A presença conjunta de sarcófago, urnas e um esqueleto separado sugere mudanças de costume entre os séculos V e III a.C., quando os romanos foram, gradualmente, passando da cremação para a inumação. Indica também uma linhagem que manteve o controlo do mesmo terreno funerário ao longo de várias gerações.

"Os túmulos sugerem uma família suficientemente poderosa para reclamar espaço numa via importante junto de um santuário, mas determinada em fixar os seus mortos perto de uma divindade protectora."

A ligação a Hércules

Ao lado dos túmulos, os arqueólogos reconheceram um pequeno edifício de culto - um sacellum, ou santuário ao ar livre - que tudo indica ter sido dedicado a Hércules. Embora a estátua central que ali teria existido não tenha sido encontrada, a configuração do espaço e os materiais associados apontam com força para o culto do herói.

Moedas de bronze recolhidas na área mostram que o santuário esteve em uso desde o final do século V ou do século IV a.C. até ao século I d.C. É um período em que Hércules era visto como protector de viajantes, comerciantes e soldados em movimento para dentro e para fora de Roma.

Hércules, conhecido como Héracles no mito grego, era considerado filho de Zeus (Júpiter para os romanos) e de uma mulher mortal. As comunidades romanas viam-no como exemplo de força, resistência e firmeza moral, mas também como guardião contra o azar. Por isso, os seus santuários surgiam com frequência junto de estradas, pontes ou portas da cidade.

"Ao colocarem os seus mortos ao lado de um santuário de Hércules, as elites locais estavam, na prática, a deixar os seus antepassados sob a vigilância de um guarda-costas divino."

Tanques de água monumentais com possível função sagrada

As escavações na Pietralata revelaram ainda duas bacias de pedra de grandes dimensões, construídas mais de um século depois dos túmulos. Mesmo fragmentárias, destacam-se pela escala no contexto suburbano.

Elemento Dimensão aproximada Possível função
Tanque maior 28 m de comprimento, 10 m de largura, 2,1 m de profundidade Uso ritual de água ou recolha em grande escala
Tanque menor Ligeiramente mais curto, quase com o dobro da profundidade Ritos de imersão ou armazenamento controlado

Santi avançou várias leituras, que vão de estruturas rituais a soluções de gestão de água ou instalações produtivas. Os tanques podem ter servido cerimónias de purificação ligadas aos túmulos e ao santuário, ou então ter suportado actividades agrícolas ou artesanais sob controlo da mesma família.

Tendo em conta a associação a Hércules, alguns investigadores já admitem a hipótese de ritos centrados na água. Na religião romana, lavar as mãos, aspergir altares e praticar imersões rituais eram gestos comuns na preparação de pessoas e espaços para o contacto com o divino.

Uma estrada antiga através de uma paisagem sagrada

A atravessar o complexo passa uma estrada antiga, que orientava viajantes no percurso de entrada e saída do núcleo urbano de Roma. Tudo indica que a via conduzia directamente ao pequeno santuário de Hércules, reforçando a sua função como ponto de paragem para quem procurava protecção ou queria agradecer favores.

No período republicano, urnas de cremação e marcos funerários alinhavam-se muitas vezes ao longo das estradas fora das muralhas. Formavam corredores de memória que enquadravam a aproximação à cidade. O sítio da Pietralata encaixa nesse padrão: arquitectura funerária e espaço de culto combinam-se como uma espécie de portal cerimonial para Roma.

"O troço da Via Pietralata mostra que os subúrbios de Roma não eram uma expansão anónima, mas paisagens cuidadosamente estruturadas de deuses, antepassados e circulação."

Sob o santuário, a equipa identificou também vestígios de uma zona votiva ainda mais antiga, com numerosos fragmentos de estatuetas em cerâmica. Isso aponta para uma tradição de culto prolongada no local, anterior à construção formal do edifício dedicado a Hércules e capaz de ligar diferentes fases da vida religiosa local.

De periferia negligenciada a foco arqueológico

O facto de um conjunto desta natureza existir numa área que hoje parece um subúrbio romano comum chamou a atenção do público. Durante décadas, muitas zonas nos limites da cidade foram vistas como espaços com pouco mais do que quintas dispersas. As escavações recentes estão a contrariar essa ideia.

Os arqueólogos do Estado defendem agora que os subúrbios preservam “memórias profundas” de como pessoas comuns - e não apenas imperadores e generais - moldaram o crescimento de Roma. Nesses espaços havia parcelas funerárias, pequenos santuários, oficinas e edifícios rurais, todos ligados ao abastecimento alimentar e à rede viária da cidade.

Conceitos-chave por trás das descobertas

Para quem está menos familiarizado com termos e práticas romanas, alguns conceitos ajudam a enquadrar o que foi encontrado:

  • Gens: grande grupo familiar romano, incluindo membros vivos e antepassados honrados, muitas vezes com nome e terras partilhados.
  • Sacellum: pequeno santuário ou recinto sagrado, geralmente a céu aberto, dedicado a um deus ou herói específico.
  • Oferendas votivas: objectos como estatuetas, moedas ou cerâmica deixados num santuário como agradecimento ou pedido de favor divino.

O sítio da Pietralata torna estes elementos especialmente claros. Tudo aponta para que uma gens tenha afirmado a sua identidade através de túmulos em pedra. O grupo manteve por perto um sacellum de Hércules, e os viajantes da estrada deixavam moedas e outras oferendas, na expectativa de protecção ou cura.

O que acontece a seguir - e por que é importante

Com as estruturas principais já expostas, equipas especializadas vão realizar análises detalhadas aos restos humanos, às amostras de solo e aos artefactos. Estudos de ADN e isótopos no esqueleto poderão indicar onde o homem sepultado cresceu e qual era a sua dieta. A avaliação de resíduos nas urnas de cremação pode revelar óleos vegetais, perfumes ou têxteis usados nos ritos funerários.

Os responsáveis pelo planeamento urbano em Roma enfrentam um dilema recorrente: como proteger e estudar vestígios antigos sem bloquear o desenvolvimento moderno. Em muitos casos recentes, as autoridades têm adaptado projectos de construção em torno dos elementos mais relevantes, mantendo alguns visíveis e voltando a cobrir outros para conservação.

Para visitantes e habitantes, locais como este podem alterar a forma de olhar para a cidade. Em vez de uma separação rígida entre “centro histórico” e periferias anónimas, torna-se mais fácil imaginar um mosaico de micro-mundos antigos sob o asfalto - santuários de Hércules, túmulos familiares, parcelas agrícolas e estalagens à beira da estrada.

Para quem se interessa por História Antiga, as descobertas deixam também um lembrete prático: ao ler sobre Roma, prestar atenção aos subúrbios, às divindades menores e às parcelas familiares revela, muitas vezes, mais sobre o quotidiano do que fixar o olhar apenas nos imperadores.


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