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Inteligência artificial no Banco de Portugal: Francisca Guedes de Oliveira e a supervisão comportamental perante a fraude digital

Mulher a usar computador com mapa de Portugal e interface futurista num escritório moderno.

Inteligência artificial (IA) no Banco de Portugal: oportunidades e riscos

“Estamos num momento particular devido ao desenvolvimento exponencial da inteligência artificial (IA) e como sou uma otimista por definição acho que isso nos traz oportunidades absolutamente incríveis”, mas, em paralelo, “traz riscos enormes”, afirma Francisca Guedes de Oliveira, administradora do Banco de Portugal com o pelouro da supervisão comportamental.

Em entrevista ao Expresso, a responsável defende que é essencial encontrar um equilíbrio entre inovação e proteção, sublinhando que as vantagens da IA já se sentem em soluções concretas.

Ferramentas de IA para clientes bancários e impacto nas reclamações

No relacionamento com o público, refere que a IA está presente “em algumas ferramentas que estão disponíveis para os clientes bancários a vários níveis, como seja o chatbot que ajuda o cliente a fazer reclamações e lhe dá respostas imediatas sobre o assunto reclamado. Esta ferramenta tem ajudado a reduzir o número de reclamações”.

IA na deteção de irregularidades: publicidade, redes sociais e finfluencers

A administradora aponta ainda uma utilização “extraordinariamente importante” num projeto do Banco de Portugal focado “na leitura dos suportes publicitários que tem permitido uma atuação mais eficaz das irregularidades e no varrimento das redes sociais”.

No caso das redes sociais, explica que a tecnologia “permite-nos chegar a um universo com o qual temos alguns problemas, os finfluencers (influenciadores financeiros), se estes fizerem publicidade a produtos e serviços financeiros ou a alguém que os venda”, algo a que, garante, “seria impossível de chegar” por vias tradicionais.

Francisca Guedes de Oliveira acrescenta que o Banco de Portugal “começou por testar uma plataforma especifica identificando os atores que queríamos inspecionar para perceber o alcance da ferramenta. Obtivemos excelentes resultados e até ao final do ano queremos abrir mais o espectro”, para que esta solução “nos ajude a detetar potenciais irregularidades e podermos atuar”. E, “no limite retirar a informação ou a pessoa das redes sociais”.

Fraude digital: risco e resposta conjunta

A mesma capacidade tecnológica tanto pode ser usada para enganar como para proteger. Como nota, a IA pode servir para espalhar esquemas fraudulentos e também para os identificar e reduzir: “À partida é um risco, porque a inteligência artificial vai permitir fingir que sou eu e vai fazer com que seja fácil replicar a minha voz, os meus movimentos, a minha impressão digital”, mas é igualmente uma aliada no combate à fraude, sobretudo quando esta acontece no digital.

A IA tanto serve para disseminar esquemas fraudulentos como para detetar e mitigar fraudes

Para a responsável da supervisão comportamental, a fraude digital é “uma das áreas críticas de atuação, onde podemos, de facto, marcar a diferença juntamente com a indústria e as pessoas”. E, neste domínio, defende que “é preciso atuar a dois níveis: do lado da procura, com a divulgação de informação para os mais jovens e os mais seniores”.

Do lado de quem fornece produtos e serviços, diz, “há vários eixos onde temos de atuar”. Um desses eixos arrancou no início de 2025, “com a criação de um grupo de trabalho interno sobre fraude, mas com uma tónica particular na fraude digital”, revelando que era essencial reunir dentro do Banco de Portugal equipas que trabalhavam de forma isolada, “definido uma taxonomia própria comum ao banco do ponto de vista de fraude e do que eram as nossas ações”. O objetivo, conclui, “é prevenir a fraude”, reconhecendo tratar-se de “uma tarefa difícil que exige uma ação interna concertada em clara colaboração com a indústria (instituições financeiras)”.

Constrangimentos em contas e instituições

Encerramento de contas bancárias e necessidade de presencial

O fecho de contas bancárias continua a enfrentar alguns constrangimentos, embora o volume de reclamações sobre este tema se mantenha, “o que significa que as coisas estão a fluir”. Ainda assim, assinala que permanece a dificuldade de encerrar contas à distância: “Há uma necessidade do presencial, por exemplo mesmo em contas abertas online, que deviam ser encerradas online. É claramente um tema preocupante para o qual continuamos a olhar e a pressionar, mas que tem muito a ver com o governo interno das entidades. Há um nível de responsabilização, da passagem da informação para quem está aos balcões.”

Entidades sem presença física e regime de livre prestação de serviços

Outra frente acompanhada pela supervisão comportamental é a vigilância de entidades que operam sem presença física em Portugal. O Banco de Portugal admite que não consegue alcançar todas, sobretudo as que atuam em livre prestação de serviços. “Há formatos legais diferentes que fazem com que a nossa capacidade de supervisão seja diferente”, mas “continuamos obviamente a fazer inspeções”, em particular quando a origem é fora da Europa.

Apesar de muitas escaparem ao escrutínio - e não existindo um número exato -, “em 2025, foram apresentadas ao Banco de Portugal reclamações de clientes relativamente a 32 entidades a atuar em Portugal ao abrigo do regime de livre prestação de serviços”.

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