Um novo estudo concluiu que o calor extremo pode deixar muitos mais milhões de adultos com níveis de actividade física insuficientes até 2050, somando quase 700.000 mortes precoces adicionais por ano.
O resultado volta a enquadrar o exercício como um problema ligado ao clima, condicionado por factores como a sombra disponível, os horários de trabalho e o acesso a espaços frescos.
Calor extremo e inactividade
Em 156 países, meses anormalmente quentes apareceram não apenas nas estatísticas meteorológicas, mas também no número de adultos a cair abaixo dos níveis saudáveis de actividade.
Ao comparar anos mais quentes com anos mais frescos, Christian García-Witulski, doutor na Pontifical Catholic University of Argentina (UCA), mostrou que o aumento das temperaturas empurra mais pessoas para a inactividade.
Em média mundial, cada mês adicional acima de 27,8 °C elevou a inactividade em 1,44 pontos percentuais; nos países com menos recursos, o aumento foi de 1,85 pontos.
Estes valores transformam o calor de um incómodo quotidiano numa força capaz de alterar a forma como as pessoas trabalham, se deslocam e praticam exercício.
Mexer-se protege o corpo
A actividade regular ajuda a proteger o coração, a regulação do açúcar no sangue, o humor e o sono, ao favorecer a utilização de combustível pelos músculos e uma melhor resposta dos vasos sanguíneos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 31% dos adultos e 80% dos adolescentes ficam aquém dos níveis de actividade recomendados.
Em geral, os adultos precisam de pelo menos 150 minutos de actividade moderada por semana, ou 75 minutos de actividade vigorosa, para obter benefícios claros.
Quando falta movimento, o risco aumenta: músculos inactivos consomem menos glicose e gordura, o que, com o tempo, sobrecarrega o coração e o metabolismo.
Trajectórias climáticas mais quentes divergem
Até 2050, a inactividade projectada aumentaria 0,98 pontos percentuais num cenário de menores emissões e 1,75 pontos na trajectória mais quente.
As trajectórias climáticas - futuros padrão usados por cientistas do clima - traduzem decisões sobre energia, população e desenvolvimento em níveis de calor no futuro.
As regiões quentes próximas do Equador, incluindo a América Central, as Caraíbas, o leste da África subsaariana e o Sudeste Asiático equatorial, registariam os saltos projectados mais acentuados.
A Bélgica e a Finlândia apresentariam pouca alteração, evidenciando como a latitude e a capacidade de arrefecimento influenciam o risco.
A desigualdade altera a exposição
O impacto do calor não foi uniforme: em locais mais pobres, os ganhos de inactividade foram mais elevados, porque a refrigeração e o acesso a espaços interiores seguros têm custos.
Pouca sombra, ar condicionado irregular e horários de trabalho rígidos transformam os meses quentes em oportunidades perdidas para caminhar, pedalar, brincar ou treinar.
“Não é apenas uma história sobre o clima, é também uma história sobre desigualdade”, afirmou García-Witulski. Esta exposição desigual significa que aconselhamento de saúde, por si só, não resolve um problema inscrito nas ruas, nas casas e nos horários.
Género e idade
As mulheres apresentaram uma resposta ao calor mais acentuada do que os homens, e os países com populações mais envelhecidas também mostraram aumentos mais fortes.
A biologia pode ter influência, porque o arrefecimento depende do fluxo sanguíneo e da transpiração, que variam com a idade e o sexo.
As normas sociais podem acrescentar outra camada, quando as mulheres têm menos tempo, menos segurança ou menos acesso a locais frescos para fazer exercício.
Estes padrões tornam menos eficazes as recomendações genéricas para o calor, face a apoios orientados para quem enfrenta escolhas mais apertadas.
Como funcionaram os números
Os investigadores recorreram a registos anuais por país, pelo que cada nação contribuiu com um padrão de temperatura e uma estimativa de actividade por ano.
Para que o calor reflectisse a exposição real, usaram temperatura ponderada pela população - uma medida do calor onde as pessoas efectivamente vivem - fazendo com que regiões vazias pesassem menos.
Compararam anos invulgarmente quentes com o padrão histórico de cada país, o que ajudou a separar o efeito do calor de factores como cultura, geografia e rendimento.
Este desenho reforça a ligação ao calor, mas não permite provar o motivo de cada pessoa para ficar em casa.
A perda de trabalho também pesa
A redução da actividade tem ainda um custo económico, já que a doença e a morte precoce diminuem o tempo em que as pessoas conseguem trabalhar.
Uma análise estimou que, em 2013, as perdas de produtividade devido à inactividade física foram de $13.7 billion em 142 países.
Até 2050, espera-se que a inactividade impulsionada pelo calor custe à economia global mais $2.40 billion a $3.68 billion por ano, dependendo de quanto o planeta aquecer.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma agência laboral das Nações Unidas, alerta separadamente que o calor pode abrandar os trabalhadores ou mesmo impedir o trabalho por completo.
Limites mantêm as conclusões realistas
Há limitações importantes que impedem que estes números sejam um prognóstico exacto para cada bairro.
A actividade foi medida através de inquéritos auto-reportados - questionários em que as pessoas descrevem o seu próprio comportamento - pelo que a memória e a pressão social podem distorcer as respostas.
As médias nacionais anuais também ocultam mudanças sazonais, diferenças de calor ao nível das cidades e se o movimento ocorre por trabalho, deslocações ou lazer.
Outros perigos climáticos, incluindo cheias, chuva intensa e furacões, não foram considerados, pelo que alguma perturbação pode não estar contabilizada.
Arrefecer protege as escolhas
As cidades podem reduzir o risco ao tratar sombra, água e salas arrefecidas como instrumentos de saúde, e não como extras.
O desenho urbano adaptado ao calor - planeamento que mantém ruas e parques mais frescos - facilita caminhar ou pedalar sem esforço perigoso.
Espaços interiores acessíveis para exercício tornam-se relevantes quando os percursos ao ar livre ficam inseguros nas horas de maior calor.
“Em termos práticos, políticas de actividade física resilientes ao clima são aquelas que ajudam as pessoas a manter-se activas em segurança mesmo com condições mais quentes”, disse García-Witulski.
Manter o movimento possível
Num mundo a aquecer, o movimento diário passa a depender de decisões colectivas, desde ruas com sombra até protecções no trabalho e espaços arrefecidos a preços comportáveis.
Energia mais limpa e um planeamento mais inteligente podem ajudar mais pessoas a manter-se activas, mas as projecções continuam limitadas por dados nacionais e por choques climáticos não medidos.
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