Gladys West, matemática norte-americana cujo trabalho ajudou a lançar as bases do GPS moderno, morreu aos 95 anos. Durante muito tempo afastada dos holofotes, esta pioneira contribuiu decisivamente para o aparecimento de uma das tecnologias mais utilizadas no mundo.
Da Virgínia rural à universidade
Nascida em 1930 no condado rural de Dinwiddie, na Virgínia, Gladys West cresceu num país ainda regido por leis de segregação. A infância decorreu num ambiente marcado pela discriminação: desde cedo ajudava a família numa pequena quinta, sob um calor intenso, e depois caminhava vários quilómetros para chegar a uma escola destinada apenas a alunos negros.
Ainda jovem, percebeu que a educação era a sua única saída. “Eu sabia que tinha de tirar um curso e sair. Não queria ficar presa ali a vida inteira”, contou em 2020 numa entrevista ao The Guardian.
Aluna brilhante, conquistou uma bolsa atribuída aos dois melhores estudantes da sua turma e entrou no Virginia State College, uma universidade historicamente negra, para estudar Matemática. Concluiu a licenciatura em 1952 e o mestrado em 1955, acumulando trabalhos ocasionais para conseguir pagar os estudos.
Entrada no centro naval de Dahlgren
Depois de um período a dar aulas, foi contratada em 1956 pelo centro naval de Dahlgren, na Virgínia. Tornou-se então a segunda mulher afro-americana recrutada naquela base e uma das poucas funcionárias negras em todo o local.
Os seus cálculos no centro do GPS
Em Dahlgren, Gladys West integrou um dos desafios científicos mais exigentes da época: modelar com grande precisão a forma da Terra a partir de dados recolhidos por satélites. Programou os primeiros computadores do centro e desenvolveu modelos geodésicos concebidos para corrigir as trajectórias dos satélites.
Na década de 1970, liderou, entre outros, o projecto Seasat, o primeiro satélite dedicado à observação dos oceanos, e produziu cálculos que viriam a ser determinantes para a futura navegação por satélite.
Estes avanços são hoje considerados uma das bases do sistema GPS, usado na aviação, em operações de emergência, na logística e nos smartphones. Ainda assim, West demorou a aperceber-se da dimensão do impacto do que fazia: “Não achávamos que aquilo que estávamos a fazer no meio militar iria um dia servir o sector civil. Foi uma agradável surpresa”.
Uma figura na sombra
Como tantas cientistas - e, de forma ainda mais intensa, tantas mulheres negras - permaneceu invisível durante décadas. Apesar disso, continuou a investir na formação: fez um segundo mestrado e, aos 70 anos, concluiu um doutoramento depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral.
Só a partir de 2018 o seu papel começou a ser reconhecido publicamente. Foi integrada no Hall of Fame da US Air Force e celebrada como um dos “rostos escondidos” da tecnologia moderna. Discreta na militância, defendia maior apoio às mulheres e às minorias nas ciências: “Tivemos de provar que éramos tão capazes como os outros. Não há diferença no trabalho que podemos realizar”.
Ironicamente, Gladys West quase nunca usava o GPS. Preferia mapas em papel.
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