Os Mercedes-Benz Classe A e BMW Série 1 funcionam como modelos de entrada nas respetivas gamas e são decisivos em termos de volume comercial. Ainda assim, nada garante que ambos venham a ter continuidade.
Esta leitura resulta de declarações recentes de Ola Källenius, diretor executivo da Mercedes-Benz, e também de uma fonte da BMW citada pela publicação britânica Autocar.
Para já não existe uma decisão final, mas convém sublinhar que o debate sobre o que acontecerá aos compactos da Mercedes e da BMW já está em curso.
Mercedes-Benz Classe A e BMW Série 1: futuro em aberto
A pressão para tornar as gamas mais rentáveis, as mudanças aceleradas na eletrificação e as novas exigências regulamentares estão a empurrar as marcas para escolhas difíceis. E, num contexto destes, os modelos mais acessíveis podem ser os primeiros a ficar em risco.
Olhar para cima e não para baixo
Durante a cimeira do Financial Times dedicada ao tema do futuro do automóvel, Ola Källenius afirmou que na semana seguinte iria partilhar mais detalhes sobre o futuro do Classe A e de outros compactos da marca, após um evento com investidores.
Ainda assim, deixou desde logo uma ideia orientadora: “(…) o nosso objetivo não é o de ser um concorrente dos que produzem volumes elevados. Não é isso o que a marca Mercedes-Benz representa. Fiquem atentos no que concerne ao nosso portfolio de produtos. Mas nós iríamos preferir olhar mais para cima do que olhar para baixo”.
Estas palavras voltam a colocar sob escrutínio a continuidade do Classe A e alinham-se com mensagens anteriores, nas quais Källenius já tinha indicado que a estratégia da Mercedes-Benz passaria por uma aproximação às gamas superiores - uma linha que não se afasta muito daquela que a rival BMW também já sinalizou.
A pandemia e a escassez de semicondutores acabaram por reforçar esta opção, ao «forçar» a marca da estrela a concentrar a produção nos modelos mais lucrativos e posicionados acima. O resultado refletiu-se em 2021, com um desempenho financeiro muito favorável (14 mil milhões de euros de lucro).
Mesmo com uma quebra de 5% nas vendas em 2021 face a 2020, a Mercedes-Benz manteve-se acima das duas milhões de unidades. Ao mesmo tempo, as gamas AMG, Maybach e o G bateram recordes, o Classe S registou uma subida expressiva e o EQS arrancou com força no mercado.
Depois deste período marcado por pandemia e constrangimentos de componentes, a guerra na Ucrânia poderá igualmente acelerar a mesma estratégia. Nas palavras de Ola Källenius, a subida dos preços das matérias-primas deverá traduzir-se num custo adicional de 2,5 mil milhões de euros para a Mercedes-Benz este ano, algo que pode penalizar a rentabilidade, sobretudo nos modelos mais acessíveis da marca, como o Classe A.
Sucessor a combustão? Provavelmente não
De Estugarda para Munique, o cenário também não é totalmente claro no que toca ao BMW Série 1 e aos restantes modelos compactos.
Uma das razões prende-se com a base técnica: a plataforma UKL (hoje na sua segunda geração) e a derivada FAAR terão 12 anos quando chegar o momento de substituir o Série 1, em 2026-27 - uma idade que, na prática, torna provável a necessidade de uma nova arquitetura ou, no limite, de mais uma evolução da atual.
Plataforma UKL/FAAR e limites à eletrificação
Ainda assim, esse passo pode não acontecer devido ao ritmo rápido de eletrificação no setor e ao impacto esperado da futura norma Euro 7.
Segundo a fonte citada pela Autocar, “existem uma série de questões a considerar. Primeiro, a dimensão da UKL torna a eletrificação mais difícil porque o potencial do tamanho da bateria fica limitado.”
A expectativa é que, quando surgir um substituto para o Série 1 atual, a maioria dos modelos com motor de combustão passe a ser híbrida plug-in e com autonomia superior a 60 km. Isso implicaria uma plataforma maior para acomodar uma bateria mais volumosa, o que, por sua vez, levaria a automóveis maiores e, inevitavelmente, mais caros.
O problema da escala e dos mercados
A mesma fonte acrescenta: “Segundo, a escala da UKL é um problema”, prossegue. “(Os modelos baseados na UKL1) não vendem em grandes volumes nos EUA. O maior mercado potencial é, provavelmente, a China (…), mas aí eles querem apenas um sedan (berlina de três volumes e quatro portas) ao invés de um hatchback (berlina de dois volumes e cinco portas).
Ainda assim, ressalva que os “volumes são bastante bons e um carro como este é importante como o “meu primeiro BMW”. Se sairmos do mercado, estaríamos a dar quota de mercado aos nossos rivais”.
Euro 7: mais espaço, carros maiores e mais caros
Quanto à Euro 7, cuja apresentação da versão final foi adiada para julho - já pela segunda vez -, e que poderá entrar em vigor tão cedo como 2025, o efeito também se fará sentir nos futuros modelos de combustão e nas plataformas que os suportam.
O motivo é simples: será necessário reservar mais espaço para catalisadores que deverão ser significativamente maiores. Mais uma vez, mais espaço implica um automóvel maior e, potencialmente, mais caro.
Um caminho possível seria mesmo terminar com o Série 1 equipado com motores de combustão e avançar, em alternativa, para um sucessor exclusivamente elétrico. Uma solução que aparenta ser semelhante à escolhida pela Audi para o sucessor do atual A3, previsto para 2027, que deverá ser apenas elétrico e assente na plataforma SSP.
Fonte: Autocar
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