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Ensaio EXTEND: teste ao sangue de ADN tumoral orienta o tratamento do cancro oligometastático

Médico a mostrar imagem digital de DNA numa tablet a uma mulher numa consulta num consultório.

Quando o cancro se dissemina apenas para um pequeno número de novos locais, os oncologistas ficam perante um dilema terapêutico. Podem tratar todos os tumores visíveis com radioterapia, em conjunto com terapêutica farmacológica, ou optar apenas pela terapêutica farmacológica.

Na prática, muitas vezes a decisão acaba por depender de quantas lesões aparecem no exame de imagem. Só que esse número pode não ser, afinal, a pergunta mais relevante.

Um novo ensaio clínico mostrou que uma análise simples ao sangue reflete o estado real da doença com muito mais precisão do que a contagem de “pontos” visíveis numa imagem.

Contar lesões nos exames

Os oncologistas chamam a esta fase inicial de disseminação cancro oligometastático, ou seja, um cancro que ultrapassou o local de origem e chegou apenas a um punhado de novas localizações.

A abordagem habitual passa por contabilizar as lesões detetáveis e, com base nesse total, decidir se faz sentido tratar localmente.

O problema é que pequenos aglomerados de células tumorais podem ficar abaixo do limiar de deteção dos exames. Assim, dois doentes com a mesma contagem de lesões podem ter realidades biológicas muito diferentes.

O ensaio EXTEND procurou perceber se uma análise ao sangue poderia colmatar essa lacuna. A investigação foi liderada pelo Dr. Chad Rusthoven, da University of Texas MD Anderson Cancer Center (MD Anderson).

Os resultados foram apresentados pelo Dr. Alex D. Sherry, da Mayo Clinic, a 16 de maio de 2026, em Estocolmo, no congresso anual da Sociedade Europeia de Radioterapia e Oncologia.

No interior do ensaio

O EXTEND incluiu 237 doentes com uma a cinco metástases visíveis. Foram abrangidos vários tipos frequentes de cancro, incluindo cancro do pâncreas, da mama, do rim e da próstata.

Os investigadores criaram ainda uma categoria final para tumores que não se enquadravam nesses grupos.

Cada participante foi aleatorizado para receber apenas terapêutica farmacológica ou terapêutica farmacológica combinada com radioterapia de alta precisão dirigida a todos os locais visíveis de disseminação.

Foram recolhidas amostras de sangue em três momentos: antes do início do tratamento, ao fim de três meses e novamente se a doença progredisse.

Em cada amostra, os investigadores analisaram ADN tumoral - pequenos fragmentos libertados pelas células cancerígenas para a corrente sanguínea.

Trabalhos anteriores já tinham sugerido que juntar radioterapia à terapêutica farmacológica poderia aumentar a sobrevivência em alguns doentes com disseminação limitada. Um ensaio de 2024 em cancro do pâncreas foi um desses indícios.

O que revelaram as análises ao sangue

Os doentes com ADN tumoral detetável no sangue antes do tratamento tiveram maior probabilidade de ver o cancro continuar a crescer. Também apresentaram maior probabilidade de morrer durante o ensaio.

O sinal no tubo de ensaio acompanhou os desfechos de forma mais nítida do que a contagem de lesões. Até este estudo, os médicos não dispunham de uma forma robusta de fazer essa distinção.

Um doente pode ter apenas três lesões no exame, mas a presença de ADN tumoral detetável no sangue pode revelar um cenário muito diferente. E essas duas situações apontam para decisões terapêuticas distintas.

Eliminar o sinal

No grupo que recebeu tratamento combinado aconteceu algo que não se viu no grupo apenas com fármacos: houve mais doentes a ficarem sem ADN tumoral detetável no sangue.

Ao acrescentar radioterapia focada a cada local visível, pareceu possível eliminar vestígios de atividade tumoral que, por si só, os fármacos não conseguiam remover.

Isto foi determinante. Os doentes cujas análises passaram a negativas para ADN tumoral tiveram uma sobrevivência muito superior à daqueles cujos testes se mantiveram positivos.

A negativação no sangue - e não o que aparecia na imagem - foi o melhor indicador do rumo provável da doença.

Quando o cancro continua ativo

Por outro lado, se o ADN tumoral persistia após o tratamento, o cancro frequentemente continuava ativo, por vezes com comportamento mais agressivo.

Em alguns casos, a análise ao sangue sugeria atividade tumoral que os exames de imagem nunca chegaram a detetar, o que apontava para o desenvolvimento precoce de resistência ao tratamento.

Esse tipo de alerta antecipado dá aos oncologistas uma janela crítica para intervir. Em vez de aguardarem pelo aparecimento de uma nova lesão na imagem, podem detetar problemas na análise ao sangue e ajustar a estratégia.

Um estudo anterior em cancro do cólon já tinha deixado antever este padrão, embora sem o rigor de um ensaio aleatorizado. O EXTEND traz agora evidência mais sólida.

A importância do tratamento direcionado

“Isso reforça a importância do tratamento direcionado, como a radioterapia, quando se trata cancro oligometastático”, afirmou Sherry.

A equipa considera ainda que este é um caminho para afinar o tratamento no futuro. Se o sangue continuar a mostrar sinal tumoral após a radioterapia, isso pode significar trocar esquemas de fármacos, acrescentar outra terapêutica ou voltar a intervir com mais tratamento focado.

A imagiologia não vai desaparecer. A TAC e a RMN continuam a ser ferramentas centrais no seguimento oncológico. O ensaio não as substitui - complementa-as.

Um marcador baseado no sangue é rápido, repetível e, em muitos casos, muito menos invasivo do que uma biópsia, de formas que os exames de imagem não conseguem ser.

E pode ser colhido a cada poucas semanas, se necessário. Esse tipo de periodicidade não é viável com imagiologia.

Implicações mais amplas do estudo

O que o EXTEND acrescenta é uma base de evidência que antes não existia. Num ensaio aleatorizado com vários tipos de cancro, uma análise ao sangue para ADN tumoral superou a contagem de lesões como indicador.

O teste distinguiu quais os doentes com maior probabilidade de beneficiar da radioterapia e quais os mais suscetíveis de ver a doença progredir.

Para os doentes, isto pode traduzir-se em tratamento ajustado ao que o cancro está a fazer agora - e não ao aspeto que tinha num exame realizado há três meses.

Para os investigadores, abre-se um caminho mais claro para testar se intensificar o tratamento nos doentes cujas análises se mantêm positivas pode melhorar a sobrevivência. Os médicos passam a ter uma ferramenta para ler o que o exame não consegue mostrar.

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