Um laboratório hospitalar parece, à partida, um dos ambientes mais controlados da medicina. O tecido recolhido numa biópsia ou numa cirurgia chega em frascos, é mergulhado num líquido de odor intenso para impedir a degradação e fica à espera de ser observado ao microscópio.
Esse conservante cumpre bem a sua função. A preocupação recai sobre quem respira os vapores, dia após dia, porque uma nova análise a hospitais do Reino Unido sugere que muitos profissionais estão a inalar quantidades muito superiores ao que alguma vez foi devidamente medido.
Dentro do laboratório
O conteúdo desses frascos é formaldeído, um químico penetrante que fixa o tecido, endurecendo-o e evitando que apodreça. Para os laboratórios, é difícil trabalhar sem ele: as amostras precisam de permanecer em imersão durante horas até ganharem consistência suficiente para serem cortadas e interpretadas.
Foi este equilíbrio entre necessidade e risco que chamou a atenção da Dra. Magdalena Plesa, da Universidade de Liverpool. Em conjunto com o patologista hospitalar Dr. Richard Yates, procurou perceber quanto formaldeído permanece no ar respirado pelas equipas dos laboratórios do Reino Unido - algo que, até então, nunca tinha sido quantificado a nível nacional.
A urgência da pergunta está no próprio composto. Considerado há muito um carcinogénio conhecido, o formaldeído tem sido associado, ao longo de décadas, a cancros do nariz e da garganta e também a neoplasias do sangue, como a leucemia.
O que fazem os vapores
Os sinais iniciais podem passar despercebidos. Perto do nível que a Europa hoje trata como limite máximo, os vapores fazem arder os olhos e irritam a garganta; surgem depois tosse e corrimento nasal.
A irritação é apenas a face mais leve do problema. Estudos com pessoas expostas no trabalho acompanharam uma diminuição da função pulmonar e taxas mais elevadas de asma; um estudo de grande dimensão relacionou ainda o aumento dos níveis de formaldeído com asma na infância.
Outras investigações associaram a inalação do químico a dificuldades em engravidar e a maior probabilidade de aborto espontâneo. Trabalhos mais recentes assinalam possíveis ligações a uma doença do neurónio motor e a problemas de memória mais tarde na vida.
A leitura dos registos
Avaliar a exposição em todo um sistema de saúde parece, à primeira vista, impraticável. No Reino Unido, a legislação abriu uma via: os hospitais são obrigados a registar medições da qualidade do ar, e esses dados podem ser solicitados pelo público. Assim, a dupla pediu a quase todos os hospitais do NHS no país um ano de registos.
A resposta foi massiva. Todos responderam e a maioria enviou um ano completo de informação, totalizando mais de 1.7 milhões de medições de ar em 117 laboratórios de patologia no Reino Unido.
Apesar do volume, a monitorização era escassa. Na maior parte dos laboratórios, o ar era medido uma vez por semana ou com menor frequência; em alguns casos, apenas uma vez por ano. Isto contrasta com cargas de trabalho que muitas vezes ultrapassam 37,000 amostras por ano.
Acima do limite
Em sete em cada dez laboratórios, o extremo superior das concentrações registadas de formaldeído excedia o limite de longa duração da União Europeia - o máximo que um trabalhador deveria respirar ao longo de um dia inteiro. O padrão repetia-se em todo o país.
Mais de quatro em cada dez laboratórios ultrapassaram também o limite de curta duração, mais apertado, definido pela UE. Em média, nenhum excedeu o limite nacional do Reino Unido, mas quase um terço registou pelo menos uma medição acima desse tecto ao longo do ano.
Só cerca de um em cada nove laboratórios apresentou bons resultados nos dois critérios: medições diárias e valores abaixo do limite europeu. Alguns eram centros grandes, com dezenas de milhares de casos, mostrando que cumprir é viável.
“Os nossos dados levantam preocupação quanto à saúde de milhares de trabalhadores do NHS”, afirmou Plesa, uma das autoras do estudo. E não atenuou a conclusão.
Um vazio regulatório
É aqui que os números se tornam difíceis de explicar. O Reino Unido permite a exposição ocupacional ao formaldeído a uma das concentrações mais elevadas aceites em qualquer lugar, quase sete vezes acima do que a UE actualmente autoriza ao longo de um dia.
A Europa endureceu as regras em 2021, após anos de evidência acumulada. O Reino Unido, fora do bloco desde 2020, não tinha obrigação de acompanhar essa mudança. E não acompanhou.
Também nos Estados Unidos a inquietação tem crescido. Uma revisão governamental de 2024 considerou o formaldeído um risco injustificável para a saúde humana e definiu um nível que classifica como seguro para os pulmões mais de 350 vezes inferior ao limite ocupacional do Reino Unido.
Onde ocorre a exposição
A maior parte dos vapores provém de duas tarefas específicas. Reduzir amostras grandes ao tamanho necessário liberta formaldeído, tal como despejar no lavatório o líquido remanescente depois de retirada a porção útil de tecido.
A principal barreira é uma bancada ventilada, aberta na frente, que aspira os vapores para baixo. Ajuda, mas a protecção é irregular e não se vê: durante a tarefa, o trabalhador não tem forma de perceber que o sistema está a falhar.
Edifícios antigos agravam o problema, porque uma ventilação deficiente compromete até uma bancada bem operada. Já existem armários totalmente fechados, usados noutros locais, e a lei do Reino Unido prevê esse tipo de contenção sempre que seja razoavelmente possível.
O que muda agora
Pela primeira vez, existe uma visão nacional do quanto formaldeído permanece no ar respirado por equipas de laboratório do NHS. Mede-se pouco. Em muitos locais, controla-se mal. E nada disto era visível até alguém reunir os registos.
O que os dados não conseguem esclarecer é quando e de que forma foi feita cada medição - uma lacuna assinalada tanto pelos investigadores como por um comentário associado. Esse comentário sublinha ainda que o NHS não dispõe de regras partilhadas para este químico e defende que os limites do Reino Unido deveriam ser alinhados com os europeus.
Segundo os autores, resolver não tem de ser dispendioso: sobretudo equipamento melhor e medições mais frequentes. E o risco vai além dos hospitais, porque o mesmo químico está presente em fábricas, estaleiros de construção e casas funerárias, onde muitas mais pessoas o respiram sem supervisão.
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