A Ford F-150 Lightning, a primeira pick-up totalmente elétrica da marca, tem tudo para baralhar as contas ao mercado dos Estados Unidos da América (EUA) - mesmo que isso ainda não seja evidente para toda a gente.
Dentro da Ford, o cenário é outro. Em Dearborn, quem trabalha no construtor está plenamente consciente do alcance desta F-150 elétrica, ao ponto de muitos a verem como o lançamento mais determinante desde o Ford Model T, há 114 anos - o automóvel que ajudou a cimentar a produção em massa em linha de montagem.
Aqui não se fala de um elétrico de nicho, pensado para pioneiros da tecnologia ou para um público movido sobretudo por preocupações ambientais. A Lightning aponta, assumidamente, ao grande público: profissionais da construção, agricultores, rancheiros, vigilantes e muitos outros utilizadores para quem uma pick-up é ferramenta de trabalho e de vida.
O contexto ajuda a perceber a ambição. Com cerca de um milhão de novas matrículas por ano, a F-150 lidera as vendas nos EUA há quatro décadas e figura entre os modelos mais vendidos do planeta - um estatuto que disputa com o Toyota Corolla, embora este beneficie de volume global, enquanto a pick-up americana é, em grande medida, um fenómeno norte-americano.
E há ainda o fator calendário: a chegada da F-150 Lightning aos primeiros clientes, já em junho de 2022, representa uma vantagem relevante da Ford sobre as futuras alternativas elétricas da Chevrolet e da Ram. Pelo caminho, deixa também atrás a polarizadora Cybertruck da Tesla, que ainda não estava disponível para entregas.
Discreta por fora
Ao contrário da Cybertruck, que parece um OVNI elétrico aterrado de uma galáxia longínqua, a F-150 Lightning (com 5,91 m de comprimento) mantém uma aparência muito próxima da restante família. As diferenças estão nos pormenores, com destaque para a faixa luminosa que contorna o enorme painel frontal em plástico - de qualidade pouco convincente - que substitui a grelha.
Esse ar familiar revelou-se perfeito para circular em San Antonio, no Texas, sem chamar atenções: foi possível conduzir de forma tranquila e quase anónima no meio de milhares de veículos.
E isto num estado onde mais de metade do trânsito é feito por automóveis de dimensões generosas - muitos deles com caixa aberta -, o que torna o Texas um excelente termómetro para medir o potencial da Lightning. “fomos forçados a interromper as pré-encomendas (em dezembro) porque já íamos nas 200 000 e não queremos assustar os potenciais clientes com tempos de espera excessivos”, explica Linda Zhang, responsável pelo desenvolvimento da pick-up, acrescentando depois que “a capacidade de produção anual é, neste momento, de 150 000 veículos”.
A procura massiva torna-se compreensível tanto pelo alcance da proposta como pelo vazio, à data, na oferta dos rivais diretos. A Rivian R1T existe, mas é mais compacta e assume um posicionamento acima - o que se traduz num preço substancialmente superior.
Uma volta de avanço
Arrancar para uma corrida com uma volta de vantagem é, quase sempre, um bom sinal - seja no desporto, seja no mundo empresarial.
Ainda assim, os desafios estão à vista. “o facto de cerca de 80% das pessoas que estão a comprar a F-150 Lightning sempre terem guiado um veículo com motor de combustão”, avisa Darren Palmer, diretor da gama de veículos elétricos, que passou a concentrar-se nesta pick-up depois de terminar a sua missão (bem-sucedida) no Mustang Mach-E.
Na base da gama, a versão Pro recorre a uma bateria de 98 kWh, com autonomia homologada de 370 km (EPA). A solução de tração integral assenta em dois motores - um por eixo (4×4) - e entrega um máximo de 432 cv.
Nos primeiros tempos, porém, o volume de produção deverá recair sobretudo nas versões de topo, Platinum, com preços a partir de 90 000 dólares (aprox. 86 400 euros), mais do dobro da Pro - uma forma de tirar partido da «febre» instalada entre potenciais compradores.
No caso da Platinum, a bateria passa para 131 kWh e a autonomia sobe até 515 km. O equipamento de série é praticamente completo. Entre os dois extremos, as XLT e Lariat deverão vir a ser as mais procuradas quando a gama estabilizar.
Depois do Mach-E e da E-Transit - esses, sim, comercializados na Europa - a F-150 Lightning assume-se como pilar central da ofensiva elétrica da Ford, um plano que prevê investimento de 50 mil milhões de dólares (aprox. 48 mil milhões de euros) nos próximos anos. “É uma verdadeira revolução para a nossa marca”, assegura Palmer.
Nova suspensão e outras alterações
A F-150 Lightning assenta na mesma base técnica da versão a gasolina. Ao manter muitos painéis estampados, componentes do interior e pontos de montagem, a Ford conseguiu encurtar prazos e controlar custos - embora isso também imponha limites ao tamanho das baterias. Em alternativas como o GMC Hummer elétrico e a Rivian R1T, por exemplo, as capacidades podem chegar aos 200 kWh e 180 kWh, respetivamente.
Tão importante quanto isso, a ausência de um conjunto motriz volumoso na dianteira abriu espaço a uma solução engenhosa: os engenheiros deslocaram a unidade de climatização e o equipamento de refrigeração para junto do tabliê, libertando um compartimento sob o capô com capacidade até 400 l - mais do que num familiar compacto como o Volkswagen Golf. Esse espaço inclui ainda um ralo, útil para escoar água de objetos molhados colocados ali.
Nos EUA, é fácil imaginar a cena: duas ou três pessoas sentadas na bagageira dianteira a assistir a desportos ao ar livre, com bebidas frescas, graças às quatro tomadas para alimentação de dispositivos (um pequeno frigorífico, mas também uma televisão, um grelhador, etc.).
Além disso, há um ganho prático imediato: é mais simples esconder bens na bagageira dianteira do que deixá-los à vista na caixa de carga ou no habitáculo.
E a lista de argumentos utilitários não se fica por aqui, com (até) 11 tomadas para ligação de equipamentos elétricos distribuídas entre a caixa e a cabina.
São precisamente estes detalhes - a par do espaço interior - que pesam no consumidor americano. Basta olhar para a distância entre eixos, de 3,70 m, para perceber a generosidade do habitáculo.
Caixa aberta é um trunfo enorme
No extremo oposto da bagageira dianteira está a caixa de carga aberta: 1495 litros de volume, um dos grandes pontos fortes da Lightning, por ser igual à das F-150 a gasolina na configuração SuperCrew - a maior, com quatro portas e cinco lugares -, a única em que a versão elétrica é produzida.
Na prática, isto significa que clientes particulares e frotas podem continuar a utilizar a vasta gama de acessórios já comprados para as F-150 com motor térmico - uma vantagem muito relevante para a Lightning.
Também a carga útil joga a favor: até 1014 kg (na versão Pro), quase mais 450 kg do que o GMC Hummer e mais 225 kg do que a Rivian R1T.
E, numa pick-up, rebocar é uma função central. A F-150 elétrica consegue puxar até 4500 kg na variante mais potente - 3500 kg quando equipada com a bateria de 98 kWh - e a Ford refere que dois terços dos clientes rebocam com regularidade.
Para quem o faça quase todos os dias e com muita massa, a recomendação aponta para a bateria maior: permite deslocar mais peso e reduz o impacto na autonomia, que deixa de ser tão penalizador. A estimativa é clara: com um reboque de 2250 kg, o consumo de eletricidade aumenta pelo menos 35%, com perda de autonomia na mesma ordem.
Com a bateria de 98 kWh, isso poderia significar descer dos 370 km para 240 km - antes ainda de considerar o acréscimo de consumo no inverno (quando se aplicar), o que pode tornar a autonomia criticamente curta num país com milhares de quilómetros de estradas e deslocações interestaduais frequentes. A isto soma-se outra complicação prática: muitos postos de carregamento obrigam a desatrelar o reboque para conseguir carregar.
Carregamentos. Há boas e más notícias
No carregamento, há pontos positivos e negativos. Do lado bom, com a Estação de Carga Pro (80 A), este passa a ser o primeiro veículo à venda nos EUA com capacidade de fluxos bidirecionais - ou seja, pode também fornecer energia (2,4 kW nas versões de entrada e 9,6 kW nas de topo).
Na prática, isto permite carregar outro veículo elétrico ou alimentar uma casa inteira durante 3 a 10 dias, conforme dimensão e consumo. É uma funcionalidade valiosa num país frequentemente fustigado por furacões e tornados, que derrubam a rede elétrica várias vezes por ano em alguns estados.
A F-150 elétrica aceita até 19,2 kW em corrente alternada (AC) - 11,3 kW com a bateria mais pequena - e até 150 kW em corrente contínua (DC).
Aqui surgem as más notícias: é menos do que o GMC Hummer, que pode atingir 350 kW em DC, apoiado por uma arquitetura de 800 V (a Rivian também carrega com mais potência e a futura Chevrolet Silverado deverá equiparar o Hummer).
Na prática, a Ford vai demorar mais a carregar a bateria ou, num mesmo intervalo de tempo, recuperará menos autonomia do que alguns rivais.
Aos comandos da F-150 Lightning
Depois de explicadas as principais áreas da F-150 Lightning, chegou o momento de somar os primeiros quilómetros no verdadeiro reino das pick-ups de grande porte: o Texas.
Ao entrar na cabina, confirma-se o espaço para cinco ocupantes e a ausência de intrusão no piso na segunda fila, onde existem saídas de ventilação dedicadas.
Um detalhe prático: os encostos dos bancos dianteiros rebatem, criando uma plataforma quase plana para descansar numa paragem a meio de uma viagem longa - algo comum nos EUA -, ainda mais considerando que a recarga da bateria implica sempre algum tempo.
O ambiente a bordo é familiar para quem conhece a família F-150: desde a tampa do compartimento entre os bancos dianteiros, que pode servir de mesa de trabalho, ao ecrã central horizontal de infoentretenimento de 12” usado nas versões mais equipadas a gasolina, com comandos físicos da climatização logo abaixo.
Nas Lightning de topo, volta a aparecer o grande ecrã central vertical de 15,5″ estreado no Mustang Mach-E, integrando o controlo da climatização no próprio ecrã - uma solução menos imediata e menos rápida.
É certo que se trata de uma interface mais avançada, mas alguns potenciais clientes podem não apreciar encontrar soluções presentes num modelo que custa sensivelmente metade do preço da F-150 Lightning. O mesmo vale para a perceção global dos materiais e revestimentos, que fica aquém do que seria expectável num habitáculo de 90 mil dólares.
Foi precisamente a versão de topo que conduzimos - a F-150 mais rápida de sempre.
Apesar de ultrapassar as três toneladas em ordem de marcha (Platinum com bateria maior), a Lightning arranca com uma violência típica de elétrico: 0 a 100 km/h em apenas 4,5s. O resultado é explicado por 420 kW (571 cv) e 1050 Nm, disponíveis de forma instantânea.
A entrega pode ser ajustada pelos diferentes modos de condução. Em Conforto, a experiência é mais descontraída; em Desportivo, mais viva, com regeneração mais intensa. Ainda assim, a travagem regenerativa é mais forte quando se ativa o modo de “um só pedal” (recuperação máxima), muito semelhante ao que já se conhece no Mustang Mach-E.
Competência dentro e fora de estrada
A estabilidade sai beneficiada pelo enorme conjunto de baterias - quase uma tonelada - montado na horizontal, entre eixos e no ponto mais baixo possível do veículo.
Isso não elimina, contudo, a tendência natural de inclinação da carroçaria em curva - ela existe. As leis da física impõem-se e, sendo uma pick-up com vocação fora de estrada, é necessário contar com cursos de suspensão longos e uma geometria que permita boa articulação dos eixos.
As afinações específicas da suspensão (face às versões a gasolina) traduzem-se num conforto de rolamento competente, com a ajuda da suspensão traseira independente. Em contrapartida, nota-se alguma propensão para movimentos verticais mais pronunciados quando se atravessa um buraco fundo ou um ressalto mais marcado.
Também a direção convence, tanto em rapidez como em precisão, atendendo ao que se pede a uma pick-up com estes objetivos. Só quem estiver habituado a desportivos poderá encontrar motivos reais para crítica.
Quem não aprecie silêncio total a baixa velocidade pode ativar um som artificial com vagas semelhanças a um motor de combustão (da nossa parte, dispensamos).
E há um aviso importante para os que ponderem as jantes de 22”: perde-se conforto, aumenta o ruído de rolamento e a autonomia desce. Nesta Platinum com bateria maior, passa de 515 km com jantes de 20″ para 482 km com jantes de 22″.
Fora do asfalto, a F-150 “a pilhas” não tem o perfil extremo de um Ford Bronco ou de uma F-150 Raptor, mas, mesmo com o ângulo ventral condicionado pela bateria, não é simples encontrar um obstáculo que a pare.
A razão está, em parte, na facilidade de dosear o acelerador num elétrico. A isto juntam-se o bloqueio eletrónico do diferencial traseiro e a vetorização de binário baseada nos travões, que ajudam a ultrapassar situações mais delicadas sem sobressaltos - mesmo sem redutoras ou caixa de velocidades, naturalmente.
É parte do encanto de conduzir uma pick-up elétrica. A outra parte surge quando se baixam os vidros e se aproveita o silêncio - e a ausência de fumos - com que esta F-150 vai ultrapassando os obstáculos.
E, como em quase todos os elétricos, basta um leve toque no acelerador para a massa ganhar velocidade com impressionante facilidade, apesar das mais de três toneladas em movimento. Ainda assim, a velocidade máxima é limitada a 100 mph (161 km/h).
Dificilmente será um problema nos EUA, onde as autoestradas mais rápidas não permitem passar das 85 mph (137 km/h) e a fiscalização é frequente e rápida a aplicar penalizações com forte efeito dissuasor…
Especificações Técnicas
| Ford F-150 Lightning Platinum |
|---|
| Motor |
| Motores |
| Potência |
| Binário |
| Transmissão |
| Tração |
| Caixa de velocidades |
| Bateria |
| Tipo |
| Capacidade |
| Garantia |
| Carregamento |
| Potência máxima |
| Tempos de carregamento |
| 15-100% 50 kW (DC) |
| 15-100% 150 kW (DC) |
| Chassis |
| Suspensão |
| Travões |
| Direção |
| Diâmetro de viragem |
| Dimensões e Capacidades |
| Comp. x Larg. x Alt. |
| Distância entre eixos |
| Capacidade da mala |
| Pneus |
| Peso |
| Ângulos TT |
| Distância ao solo |
| Capacidade de reboque |
| Capacidade de carga |
| Prestações e consumos |
| Velocidade máxima |
| 0-100 km/h |
| Consumo combinado |
| Autonomia |
Nota: Não está prevista a comercialização da Ford F-150 Lightning em Portugal.
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