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Dopamina e consumo de substâncias nos adolescentes: estudo da Universidade de Pittsburgh

Paciente jovem deitado para ressonância magnética, com médico a observar imagens cerebrais num ecrã.

Um adolescente experimenta o primeiro cigarro, ou bebe às escondidas antes de uma festa. Durante anos, a explicação mais comum pareceu simples: o sistema de recompensa entra em “modo turbo”, inundando o cérebro jovem com sinais de bem-estar, enquanto o autocontrolo ainda não acompanha. Mais dopamina, mais risco.

Um estudo que acompanhou mais de 800 jovens durante até nove anos encontrou exatamente o inverso. Os adolescentes que começaram mais cedo e que experimentaram com maior intensidade apresentavam, no início, menos dessa “química da recompensa” - não mais.

Acompanhar adolescentes durante anos

O trabalho foi conduzido por uma equipa liderada por Ashley Parr, Ph.D., professora assistente de investigação em psiquiatria na University of Pittsburgh (Pitt). O grupo seguiu participantes dos 12 aos 30 anos, com ressonâncias magnéticas anuais.

Em cada visita, os participantes respondiam a perguntas sobre consumo de substâncias - álcool, cigarros eletrónicos e canábis - e realizavam testes de controlo de impulsos. No total, somaram-se mais de 6.000 avaliações, um retrato raro de como comportamento e biologia mudam em paralelo.

A maioria dos jovens quase não tinha contactado com substâncias no início do acompanhamento. É isso que dá força ao projeto: a equipa conseguiu observar o cérebro antes de o consumo intenso se instalar, e não apenas depois.

Uma janela para a dopamina

A narrativa clássica assenta na dopamina, a substância química que o cérebro liberta quando algo é vivido como recompensador. Estudos anteriores sugeriam que os adolescentes funcionam com uma “onda” de dopamina, com um centro de recompensa hiperativo a empurrá-los para experiências intensas.

Medir dopamina diretamente implica exames invasivos, que os investigadores evitam em crianças e adolescentes. Por isso, a equipa recorreu a um indicador indireto: o ferro cerebral, que se acumula no tecido do cérebro e pode ser detetado numa ressonância magnética comum.

Ferro e dopamina estão ligados. As células precisam de ferro para produzir dopamina, e um estudo anterior mostrou que, nestas regiões, o ferro acompanha o sistema o suficiente para servir como substituto.

O sinal aparece mais baixo

Ao compararem as imagens do cérebro com o comportamento, o padrão esperado não se confirmou. Os adolescentes que mais consumiam não tinham mais ferro. Pelo contrário - apresentavam menos, sobretudo no início da adolescência.

Um subgrupo destacou-se. Os investigadores chamaram-lhe o padrão de “pico juvenil”: adolescentes que começaram a experimentar mais cedo, por volta dos 12 anos, atingiram níveis de consumo mais altos e, depois, reduziram gradualmente até aos meados dos vinte. Cerca de um quarto do total encaixava neste perfil.

Aos 14 anos, antes de a maioria ter experimentado qualquer coisa, este grupo já tinha o valor mais baixo de ferro no núcleo accumbens, o centro que alimenta o impulso de procurar recompensas. De acordo com esta medida, o seu sistema de dopamina estava a funcionar “atrás do ritmo”.

Depois, o ferro cerebral aumentou - mais depressa do que no resto dos participantes - e alcançou os níveis dos outros por volta dos meados dos vinte, enquanto o consumo diminuía a par e passo. Até este estudo, ninguém tinha observado esta subida e descida no mesmo conjunto de cérebros jovens.

“Os nossos resultados sugerem que, para alguns adolescentes, correr riscos pode funcionar como uma forma de ‘pôr o sistema a funcionar’ quando a biologia de recompensa ligada à dopamina é mais baixa no início da adolescência”, afirmou Parr.

A equipa interpreta a experimentação como uma compensação: o cérebro a tentar obter uma faísca que, naquele momento, não está a gerar por si.

Quem continua a consumir

Nem todos os jovens que experimentam seguem a mesma trajetória. Para além do grupo do pico juvenil, havia adolescentes cujo consumo aumentava de forma consistente até à idade adulta. Parte do que separou uma fase passageira de um hábito persistente foi a impulsividade.

Na adolescência, ambos os grupos pareciam impulsivos. No entanto, no grupo do pico juvenil, a impulsividade diminuiu dentro do esperado, enquanto no grupo com aumento contínuo a impulsividade se manteve ao longo dos vinte anos. O mesmo traço, dois caminhos - e o caminho acabou por pesar mais do que o traço em si.

É esta diferença que tem maior valor. Identificar quem experimenta é relativamente fácil; mais difícil é perceber quem vai continuar, quem vai intensificar e quem vai parar - e estes padrões começam a separar essas trajetórias desde cedo.

Detetar o risco mais cedo

Um sinal cerebral que surge antes do consumo intenso abre uma possibilidade prática. No futuro, uma ressonância magnética de rotina poderia ajudar a identificar que adolescentes estão a inclinar-se para um percurso de maior risco, antes de os problemas começarem.

Esse futuro ainda não chegou. As diferenças existem, mas são pequenas, detetadas em médias de centenas de pessoas - não algo que se leia diretamente a partir do exame de um único adolescente. A equipa apresenta este resultado como um ponto de partida para rastreios mais eficazes.

Os dados também obrigam a repensar o “motor” da recompensa. Se alguns adolescentes procuram experiências excitantes para compensar um sistema menos ativo, a mesma necessidade pode aparecer noutros contextos - incluindo as redes sociais, apontadas pela equipa como tema de trabalho futuro.

Na maioria, é apenas uma fase

A novidade contraria aquilo que, durante muito tempo, se esperava na área. Num grande grupo de adolescentes acompanhados ao longo do tempo, os que consumiram mais cedo e com maior intensidade mostravam o sinal mais fraco associado à dopamina no sistema de recompensa, e esse sinal fortalecia à medida que o consumo diminuía.

“Correr riscos é uma parte normal de ser adolescente e, para a maioria das crianças, é uma fase que atinge um pico e depois abranda”, afirmou Beatriz Luna, Ph.D., autora sénior do estudo. Para muitas famílias, esta mensagem ajuda a trazer estabilidade.

O conselho de Luna para os pais é orientar esse apetite por experiências recompensadoras para alternativas mais saudáveis, como desportos coletivos. Há também um dado mais amplo que tranquiliza: indicadores nacionais mostram que o consumo de substâncias na adolescência está perto de mínimos históricos.

O ganho final é um mapa mais nítido da adolescência - uma forma de distinguir, com antecedência suficiente para intervir, o adolescente numa fase normal daquele que segue para dificuldades. Ainda está a ser construído, mas começa agora num ponto inesperado.

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