Este teste foi publicado pela primeira vez na Edição 194 da revista Top Gear (2009).
Som e presença do Aston Martin DBS Volante
Antes de tudo, o som: um ruído monstruoso, glorioso, em Technicolor. O DBS Volante produz aquele tipo de banda sonora que dá arrepios e puxa por metáforas a mais: com o tejadilho recolhido e o eco a bater nas sebes de pedra seca, parece que está enfiado no centro de um fosso de orquestra - um ronco grave em baixas rotações que vai subindo até um crescendo de cordas e sopros quando castiga o V12 em direcção às 7.000 rpm.
Se alguma vez existiu um som capaz de justificar, por si só, a absoluta legitimidade da combustão interna, é este: metálico, cortante e, quando as válvulas de derivação do escape abrem às 4.000 rpm, escandalosamente alto. Há quem diga - com a mesma falta de juízo de sempre - que se consegue o mesmo efeito com os vidros em baixo no DBS coupé (sim, é O Carro do Bond; fica já dito). Não ligue. O Volante faz uma barulheira tão, tão genial que dá por si a pensar: “£170k? Não é assim tão mau...”.
Pois. £170,000. É, sem dúvida, muito dinheiro. Na verdade, é dinheiro a sério: mais £50,000 do que um DB9 Volante e mais £11,000 do que o DBS coupé. Por outro lado, o DBS Volante também é um carro a sério. Para começar, basta olhá-lo. É… magnífico. Não há outro termo. Alguns iluminados - talvez os mesmos que insistem na conversa dos vidros abertos - juram que o DBS não é tão bonito como o DB9, que tem brilho a mais e detalhe a mais. Volte a ignorá-los. Repare nesses belíssimos “ressaltos” que escondem os arcos de protecção escamoteáveis na traseira. Com o tejadilho em baixo, arrisco dizer que fica ainda mais elegante do que o DBS coupé.
Só a devoção que provoca já deve valer uns bons milhares. Toda a gente adora o Volante. Numa escapadinha de fim de semana até à ponta de Cornwall, cada paragem numa bomba de gasolina - e num DBS há muitas - atraía logo uma plateia. Num Ferrari ou num Lamborghini cabrio, uma parte desse público estaria a alinhar o tecto aberto com uma golfada de saliva; ao Aston, porém, é só carinho. Tem aquela aura orgulhosamente britânica, cheira a um passado mais feliz.
Motor V12 e prestações
O motor - o mesmo V12 de 6.0 litros, todo em alumínio, com 510bhp, usado no DBS - é um colosso: dócil e descontraído quando trata o acelerador com delicadeza, e de arrepiar quando decide forçar. E é rápido, também: o Volante chega às 62 mph (100 km/h) em 4.3 segundos - exactamente o mesmo que o DBS coupé - e, mesmo com o tejadilho aberto, estica até às 191 mph (~307 km/h), entregando mais binário a meio regime do que alguém consegue usar de forma razoável sem que uma enxurrada de cartas de Sua Majestade lhe comece a aparecer à porta.
Rigidez, comportamento e condução
O Volante herda do DBS coupé a plataforma em liga leve, extremamente rígida, e a carroçaria em fibra de carbono. Aliás, a estrutura é tão rija que nem precisou de reforços para lidar com a ausência do tejadilho. A Aston garante que o cabrio é apenas 25 por cento menos rígido do que o coupé e só mais pesado em 115 kg.
Mas 25 por cento não é muito, sobretudo num carro tão extremo como um DBS? Em teoria, algo 25 por cento menos rígido do que, digamos, Usain Bolt seria uma medusa ligeiramente pontiaguda. É aqui que mora a dúvida com o DBS Volante: porquê investir tanto a criar um superdesportivo ultra-focado e super-rígido… para depois cortar o tejadilho e desfazer parte do trabalho?
Esqueça essas preocupações. A não ser que esteja a planear fazer drift a toda a volta de Alderley Edge, o Volante tem rigidez de sobra. Sim, há um pouco mais de flexão do que no coupé, mas teria de ir tão depressa para a descobrir que, se errar, o risco é mesmo grande. Para um carro tão grande, com motor dianteiro e descapotável, o Volante é surpreendentemente concentrado a conduzir: muito rápido, com uma aderência impressionante e apenas uma pitada de intimidação. Apesar de embraiagem e direcção serem pesadas, a resposta é bem linear e há feedback suficiente para perceber quando está a chegar ao limite. A suspensão é firme, mas sabe absorver no modo de amortecimento normal - tão bem, aliás, que custa imaginar em que momento faria sentido usar o modo “Desportivo” em estradas reais.
Já que vai circular quase sempre com o tejadilho recolhido, trate de montar o deflector de vento. Em auto-estrada, sem a cobertura do banco traseiro no lugar, a turbulência é violenta. Às 191 mph, a sua cabeça será puxada para trás através do encosto, como lasanha numa máquina de massa. Pode dizer-se que o deflector torna os bancos traseiros inúteis - como viu, o Volante traz dois banquinhos atrás, enquanto o DBS coupé é estritamente de dois lugares -, mas isso é injusto: eles já são inúteis mesmo sem deflector. Ainda assim, dá para enfiar lá dois pacotes de bebida e um lápis.
Tejadilho, isolamento e habitáculo
Se o tempo obrigar a levantar o tejadilho, a operação é fácil: a capota de tecido sobe ou desce em 14 segundos - três segundos mais depressa do que no DB9. Graças a uma nova camada de Thinsulate (a mesma usada por gente de apito de emergência e bússola), com o tejadilho colocado tudo fica bem silencioso… mas quem é que pede silêncio num DBS Volante?
Baixe a capota e deixe o mundo ver o interior de luxo. Quer a nossa cabine em pele vermelha Madam Whiplash lhe agrade ou não em termos de gosto, não há como negar que é um espaço soberbamente montado: couro macio, costuras cuidadas e muita peça brilhante de aspecto caro. Por vezes, brilhante demais: o ecrã de informação no centro do tablier fica ilegível com o tejadilho aberto, e os tweeters montados no tablier do sistema Bang and Olufsen - que, já agora, soa quase tão bem como o motor - têm um acabamento tão polido que fazem as luzes da rua a piscar directamente na sua retina. São detalhes pequenos, mas por £170,000, os detalhes pequenos ganham outra dimensão.
Nada se destaca mais do que aquela maldita alavanca de mudanças gigantesca - roubada a um Astra VXR, só pode - que é tão grande e está tão mal colocada que se torna quase impossível trocar de relação a não ser que tenha antebraços anormalmente curtos e mãos enormes. Também falta alguma precisão ao acelerador.
Ainda assim, estas falhas - e essa ligeira “moleza” quando se anda mesmo no limite - pesam menos no Volante do que no coupé. Por épico que seja o coupé, nunca conseguiu cumprir tão bem o papel de superdesportivo puro como o Ferrari 599. O DBS sempre foi mais um gran turismo brutalmente rápido, um DB9S, se preferir, e em formato descapotável faz esse trabalho ainda melhor. Mais do que no coupé, o DBS Volante é um acontecimento: um motim de beleza e ruído. Se o dinheiro não conta, é isto. Este é o Aston.
Veredicto
Veredicto: Menos focado do que o DBS coupé e, talvez por isso, ainda melhor. Futebolistas, preparem os talões.
6.0-litre V12
510bhp, RWD
0-62mph in 4.3secs, max speed 191mph
1,810kg
£170,000
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