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Mercedes Classe E: o futuro da berlina

Carro vermelho Mercedes-Benz a circular numa estrada costeira com motorista ao volante.

A Mercedes garante que a nova Classe E é o Futuro. Talvez até o FUTURO. A nós, parece-nos uma Classe C aumentada. Ou uma Classe S encolhida.

Estilo e posicionamento da Mercedes Classe E

No fundo, é um pouco de tudo isso. O vice-presidente de design da Mercedes, Gorden Wagener, reage com algum arrepio quando se sugere que a marca está a recuperar a ideia das “matrioskas” para a sua gama de berlinas de grande volume. “Qual é o problema disso?”, responde. “Queríamos que as Classes C, E e S fossem o núcleo de tudo, com uns 40 e tal modelos à volta. Acho que a nova Classe E é tão elegante como o CLS. E é, sem dúvida, a Classe E mais luxuosa que a Mercedes alguma vez criou.”

Logo veremos. Mas é, sem margem para dúvidas, a primeira capaz de oferecer o pacote completo de condução autónoma do tipo ‘esqueçam o condutor’.

Condução autónoma: do “Piloto de Condução” à realidade na estrada

Sim. Para enquadrar o tema, a palavra passa para o presidente da Daimler e figura máxima, Dr. Dieter Zetsche. “Temos perseguido a visão de uma condução sem acidentes há algum tempo e estamos agora a dar passos muito, muito importantes rumo à concretização disso”, diz ao TG.com. “Quando o assunto são carros autónomos, temos de ser os primeiros; não podemos limitar-nos a seguir depressa.”

O quê? E os taxistas de Estugarda?

A nova Classe E é, sem dúvida, o carro que eles esperavam - mas também poderá ser o Mercedes que lhes tira trabalho. No topo de uma lista épica de novidades está o Piloto de Condução, que recorre a uma câmara estereoscópica, sensores de radar e a uma caixa de truques discretamente alojada na asa traseira para conduzir de forma autónoma: acelera, trava, muda de faixa e até imobiliza por completo sem qualquer intervenção do condutor. A nova Classe E estende ainda a infraestrutura Mercedes de “comunicação carro-para-X”, suportada por telemóvel e serviços na nuvem, partilhando informações e avisos vindos de mais à frente na estrada. Impressionante - e ligeiramente assustador - para quem já leu William Gibson ou viu praticamente qualquer filme de ficção científica.

Excelente. Talvez a Mercedes devesse ter-lhe chamado T-1000. E se ainda gostarmos da ideia de conduzir? Estamos condenados, nós, os apaixonados por gasolina?

Menos drama. Afinal, os aviões aterram sozinhos há anos. Além disso, a discussão é quase académica: o que hoje limita a condução autónoma não é tanto a tecnologia, mas sim a necessária moldura legal internacional. Por isso, é melhor irmos interiorizando a ideia.

Percebido. Mas funciona mesmo?

Não a cem por cento. Por mais impressionante que seja em teoria, na prática continua a ter falhas: no percurso de ensaio nos arredores de Lisboa, dei por mim a duvidar do sistema vezes sem conta, sem conseguir - nem estar preparado para - confiar nele. Se tirar as mãos do volante, ouve-se um sinal de aviso; e se as mantiver fora por mais de 60 segundos, o carro conclui que o condutor é um irresponsável ou desmaiou, e pára com cuidado até ficar completamente imobilizado. É diabólico de tão inteligente, mas - a sério - para quê um carro automatizado que continua a exigir mãos no volante? Ou é tudo, ou não é nada. E, embora o céu esteja extremamente ocupado, isso não é nada quando comparado com uma rua comercial de província numa noite de quarta-feira chuvosa: só quando tentamos entregar o comando a uma máquina é que percebemos quantas variáveis gerimos ao volante e quanta improvisação existe. Assim, voltámos ao modo bafiento do século XX, analógico: conduzimos nós. Agora, passe-me a pena, faz favor.

Pois. Então a Classe E é boa de conduzir, ou não?

Motores, conforto e tecnologia na Mercedes Classe E

Ironicamente, o Piloto de Condução e o sem-fim de pacotes “- Assistente” - Assistente de Direcção Evasiva, Pre-Safe Impulso Lateral e Estacionamento Remoto, para citar apenas três de uma lista tão extensa como a lista telefónica de Pequim - acabam por distrair do essencial: estamos perante um automóvel soberbamente bem concebido. Tal como na Classe C, a nova Classe E parece ter reencontrado o verdadeiro conforto, algo infinitamente mais relevante num carro deste tipo do que a capacidade de o colocar a fazer curvas como se andasse sobre as maçanetas das portas. Mesmo a E220d - que deverá ser a grande aposta de vendas no Reino Unido - desliza com um requinte delicioso.

Este modelo traz um motor novo, certo?

Certo. A 220 recebe um 2,0 litros totalmente novo, com bloco em alumínio e pistões em aço, invertendo a receita habitual para reduzir bastante o atrito e melhorar a eficiência termodinâmica. As emissões “em bruto” são tratadas com uma recirculação de gases de escape mais eficaz, e a Mercedes trabalhou a sério para reduzir os NOx. O resultado é um consumo combinado de 72.4mpg, 102 CO2s e um motor “à prova do futuro”, preparado para o desafio crescente das “emissões em condução real” - ou seja, não vai precisar de aldrabar para apresentar os números.

Portanto, nada de fim do diesel por aqui…

Quem espera que a Mercedes vire costas ao diesel, por causa do escândalo VW, pode tirar o cavalinho da chuva: Zetsche diz que as taxas de adesão aos diesel são exactamente as mesmas de antes, e um motor tão bom como este só tende a mantê-lo relevante. Numa condução nocturna até Lisboa, a 220 mostra-se sussurrante a velocidades de auto-estrada e não resmunga demasiado quando se exige tudo dos 295 de binário. A caixa automática 9G-tronic passa pelas relações com tal suavidade que faz o empregado de bar mais melífluo soar como o merceeiro gaguejante de Ronnie Barker em Open All Hours.

Presumo que existam mais motorizações.

A 350 d, que chega mais tarde este ano, tem mais força, mas nós preferimos a híbrida plug-in 350 e, em que um quatro cilindros a gasolina de 2,0 litros e um motor eléctrico se juntam para debitar 285bhp. A E e consegue fazer cerca de 32 km (20 milhas) em modo 100% eléctrico; o pedal do acelerador dá um retorno háptico para indicar que está a ser usada a potência eléctrica máxima, enquanto um duplo impulso sugere uma utilização mais eficaz da travagem regenerativa. Se definir um destino no sistema de navegação, o carro optimiza a combinação de energia em função do percurso. Esqueça a condução autónoma: isto é inteligência artificial. Assustador.

Há mais alguma versão que lhe tenha ficado no ouvido?

Também conduzimos a E400 4Matic (não destinada ao Reino Unido), equipada com Controlo Dinâmico da Carroçaria, num circuito húmido no Estoril, e o resultado foi surpreendente: não se sentiu, nem de perto nem de longe, como uma barcaça (o que é um bom presságio para a versão AMG). A suspensão é multibraços à frente e atrás, com molas de aço de série e opção de amortecimento activo. Seja qual for a configuração, trata-se de um carro majestosamente confortável e irrepreensivelmente seguro; a estrutura combina aço de alta resistência e alumínio para aumentar a rigidez e melhorar a protecção dos ocupantes, com menos peso. E até os airbags têm airbags…

E por dentro?

É magnífica - desde que se mergulhe um pouco na lista de opcionais e se mantenha a polícia do bom gosto de prevenção. Gorden Wagener diz que o desenho do interior dá um salto de três gerações face ao modelo anterior, e é bem possível que tenha razão. A madeira e o couro são soberbos, quase ao nível de um Bentley em riqueza de materiais. A esta qualidade interior sem rival soma-se ainda mais tecnologia levada ao extremo: há carregamento sem fios para o telemóvel, que também pode funcionar como chave graças ao NFC. À frente, a vista é dominada por dois ecrãs planos opcionais de 12.3 polegadas (31,2 cm); o painel de instrumentos TFT é totalmente configurável, enquanto o ecrã central de infoentretenimento pode ser ajustado para mostrar navegação, áudio, ou ambos, com uma resolução impressionante. O volante passa a integrar dois touchpads do tamanho de um polegar, um em cada raio, com tempo de resposta ajustável. O habitáculo da Classe E é uma confluência notável de tecnologia e estilo: vai deixar os rivais na Baviera e em Ingolstadt a coçar a cabeça, e atirar o grupo de Coventry para um desespero existencial.

E quanto custa?

Os preços começam nas £35,935 para a E220 d SE, subindo até £47,425 para a E350 d em versão linha AMG. Como sempre, a lista de opcionais geme com possibilidades dispendiosas. Por isso, escolha com cabeça. “Fazer os melhores carros é o nosso negócio principal. Mas o carro não termina no hardware. Agora trata-se de alargar o âmbito”, conclui o Dr. Zetsche. A nova Classe E fá-lo com uma ambição ampla, quase panorâmica, e surpreendentemente bem concretizada.

Especificação
1950cc, quatro cilindros, 194bhp, tracção traseira, 295lb ft, 0-62mph 7.3 s, velocidade máxima 149mph, 72.3mpg, 102g/km CO2

Veredicto
Um carro espantosamente - quase intimidantemente - completo. Não é a última palavra em diversão ao volante, mas é a primeira quando se fala de um futuro generalista cheio de tecnologia.

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